EDUCAÇÃO

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O QUE ANDAM PLANEJANDO NO BREU DAS TOCAS

Prof Eduardo Simões

http://imguol.com/c/noticias/2014/12/08/propaganda-da-prefeitura-do-rio-gera-polemica-ao-comparar-educacao-com-linha-de-producao-1418051812819_300x420.jpg
Fonte: http://educacao.uol.com.br/

            Mesmo quem já está acostumado, e muito acostumado, a esse hospício pegando fogo em que se tornou a educação brasileira, não deixou de se espantar com a rude sinceridade da última campanha da gestão do prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, apresentando três crianças sobre uma esteira rolante (ver foto acima), e uma chamada no mínimo estrepitosa: “NOSSA LINHA DE PRODUÇÃO É SIMPLES, CONSTRUÍMOS ESCOLAS, FORMAMOS CIDADÃOS E CRIAMOS FUTURO”. Deus já pode se aposentar.
            Enfim, é tudo junto e misturado. Paredes, ferragens, telhas, sistemas de segurança, os indefectíveis livros e computadores, etc., além daqueles seres que ocupam a maior parte do espaço nas escolas, que todos alegam ser a sua maior preocupação, com direito a leis especiais, mas que ninguém sabe como são: crianças e jovens, pois se soubessem não fariam uma coisa dessas. Estou cada vez mais convencido da literalidade de uma expressão que eu só usei até agora como frase de efeito: as nossas autoridades não sabem a diferença entre uma criança e uma lata de conserva.
            Como alguém pode expor, de forma tão nua e crua, uma propaganda de governo que transforma seres humanos, ainda mais crianças, em mercadoria, em bens de consumo, porque só numa sociedade sem valores, ou onde os valores são tão misturados e confusos, tal iniciativa deixa o breu das tocas. De fato, nas sociedades, onde os cidadãos são usados intensivamente e jogados fora na primeira oportunidade, principalmente depois de certa idade, tornando-se descartáveis, é necessário cria-los à mancheias, em sistema como uma linha de produção, ainda que venham com defeitos de fábrica – nossos empresários nunca foram de dar muita bola para os consumidores, porque durante séculos boa parte deles era composta por escravos, ex-escravos e seus descendentes, gente-mercadoria, recém saída da linha de produção, descartada quando perdia a serventia. As cracolândias estão cheias dos resíduos da atual linha de produção.
             Mas ao fazer isso a Prefeitura do Rio de Janeiro age muito diferente de outras prefeituras e outros níveis de administração. Absolutamente não! Aqui em São Paulo é grande a luta que os professores travam em favor de uma visão mais ampla do processo educacional, para que este não fique atrelado somente aos resultados do PISA e de avaliações padronizadas, totalmente estranhas à realidade das escolas e dos alunos. Não seria o SARESP, a SED, a Nova Proposta Curricular, tentativas para uniformizar, de cima para baixo, a produção educacional das escolas, ignorando suas incríveis diferenças sociais? Qual e a diferença disso para a linha de produção de Eduardo Paes?
            Que dizer ainda dos “especialistas”, em geral profissionais de áreas estranhas à educação, que se tornaram porta-vozes de uma educação mais “eficiente”, nas páginas de nossos magazines de maior circulação? Não estão eles obcecados por produtividade, dados estatísticos, custo-benefício, etc., enfim todos esses jargões que fazem parte da rotina da linha de produção fabril? Qual é a diferença entre eles e Eduardo Paes? Onde está o que é especificamente humano no projeto educacional desses doutos opinativos, que são a afetividade e os valores sociais, afinal os animais também têm inteligência, e treinados podem fazer melhor o que já fazem rotineiramente, como também nossas crianças, quando adestradas para a realização de testes padronizados – o problema é que, de uma maneira geral, elas resistem mais ao adestramento que os adultos.
            Essa peça de propaganda absolutamente desastrada nos alerta para uma coisa muito importante: é tempo da sociedade brasileira despertar para a questão educacional, antes que loucos e aventureiros tornem a vida nas escolas mais insuportável do que já é para alunos e professores (semana passada fui agredido fisicamente por um aluno de 12 anos, na frente da coordenadora!), pois, ao contrário das chapas metálicas das latas de conserva, o comportamento das crianças tem um elevado grau de imprevisibilidade. De resto Eduardo Paes e sua equipe só podem ser acusados de uma coisa, além de não saber nada de educação e cidadania: excesso de transparência.


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A GRANDE VERDADE E A GRANDE MENTIRA

Prof Eduardo Simões


https://assets.digital.cabinet-office.gov.uk/government/uploads/system/uploads/image_data/file/20004/boys_in_school_960x640.jpg
Fonte: www.gov.uk/

Cada povo deve construir a sua escola de acordo com as suas possibilidades e tradições culturais, evitando atrelar-se a modelos externos, principalmente aqueles que são superficiais e vazios de conteúdo significativo, como os testes do PISA. A avaliação será sempre a consequência do sistema e nunca a sua causa, logo é uma aberração que alguns queiram que o resultado do PISA, criado para atingir objetivos estranhos ao nosso sistema educacional e à nossa cultura, determine o caráter do nosso sistema de ensino.

            É verdade que um país, para se tornar uma potência no sentido mais amplo do termo, precisa antes de tudo garantir educação de alto nível para as suas crianças e jovens. Tal é o caso da Argentina, um país pioneiro em matéria de educação pública, principalmente no governo de Domingos Faustino Sarmiento, de 1868 a 1874, quando uma vigorosa reforma educacional tomou forma e ajudou a lançar a nação para a quarta economia do mundo, no início do século XX, além de projetá-la no cenário da literatura mundial, confirmada por vários Prêmios Nobel.
            É mentira, e grande, porém, afirmar que, nos dias de hoje, o melhor caminho para um país atingir a excelência educacional seja atrelar o seu sistema educacional aos resultados do PISA, por um fato muito simples: não há nenhum país que tenha obtido, primeiro, grandes notas no PISA, e depois se tornado uma potência econômica ou social, mas, pelo contrário, primeiro os países se tornam grandes potências econômicas e sociais para depois conseguirem boas notas no PISA, de onde só podemos tirar duas conclusões:
            a) A educação não é relevante para o progresso de um país.
            b) O PISA não é relevante para o progresso da educação, e por tabela do país, pois apenas espelha o sucesso já alcançado pela maturação do sistema educacional e econômico construídos muito antes, e que não precisam do PISA para mostrar a sua pujança – este vale mais como um fator de propaganda política, como uma cereja sobre a cobertura de um bolo.
            O PISA é tão vinculado à realidade econômica e tão alheio ao que acontece na educação, que a Argentina, com sua poderosa tradição educacional, tem ficado sistematicamente atrás do Brasil nos últimos testes, embora em 2000 estivesse bem à frente, e em 2006 só um pouco acima, refletindo descaradamente o colapso paulatino da economia e da sociedade, sob os desmandos da Kirchner local. Ademais, prosseguem os burocratas e os oportunistas de sempre, agitando, conforme a conveniência, as bandeiras que mais lhes convém, esfarelando despudoradamente os resultados dos testes, citando a China, quando convém criar metas ambiciosas e mais disciplina nas escolas, e a Coreia ou a Polônia, quando o que interessa é acabar com a estabilidade dos professores.
            Mas a lição que fica do conjunto dos dados é única e cristalina. Se é que nós vamos continuar nos espelhando no PISA, é preciso fazer a revolução econômica, social e moral da sociedade para começarmos a atingir bons resultados nesses testes, caso contrário, mesmo sem abandonar as premissas revolucionárias citadas, devemos recriar e aprimorar nossas próprias metas educacionais, em função de nossas tradições e necessidades, e aí a escola pode ser um elemento dinamizador fundamental, modificando, inclusive relações administrativas no âmbito das escolas, sem a necessidade de passar pelo PISA, da mesma forma que Colombo descobriu a América, sem precisar passar pelos Estados Unidos.


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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SEM LENÇO, DOCUMENTO OU DIREÇÃO

Prof Eduardo Simões


http://i73.photobucket.com/albums/i236/jazzntime/hippiebusLisaShaw.jpg
Fonte: http://swampbubbles.com/
La vai o carro da educação brasileira. Segure-se quem puder!
            Quem não quer perder nada também não ganhará nada, e muito pobre há que por se preocupar em demasia com a perda dos tostões não tem tempo nem inteligência para ganhar os milhões.
            O governo estadual anda preocupado com os gastos da educação, note-se a Secretaria Escolar Digital, as visitas de agentes do Tribunal de Contas, etc., sem falar de outros sinais dos tempos: no início do ano a ordem era criar projetos, fazer gastos, hoje se controla até o papel higiênico, e só se fala em cortes financeiros para 2015, redução de salas de aula, etc., tudo para controlar os tostões. E a mina de ouro da pedagogia?
            Os antigos brasileiros eram mais realistas e sábios. Percebendo que seria impossível controlar todos os fatores envolvidos em um projeto humano, mesmo os menores, eles reconheciam a lógica e a necessidade de aceitar alguma perda pelo imponderável, hoje esquecido nos modernos projetos megalômanos, onde é quantificável, até o mais ínfimo centavo de ganhos e perdas, como se a sensação de controle dos executores do projeto importasse mais que os objetivos deste. Hoje se fala em perda zero, fome zero, etc., enquanto os antigos falavam da parte das saúvas.
            A verdade é que as saúvas da incompetência pessoal, da desonestidade coletiva, do imponderável natural sempre ficarão com uma parte do investimento de um projeto, que será tanto menor quanto mais claro, detalhado e realista for o objetivo em mente, na escola isso se chama projeto pedagógico, cuja finalidade é aprimorar o potencial transformador da inteligência de alunos e professores. Como fazer isso sem psicologia ou com uma pedagogia que só consegue projetar resultados numéricos de exames artificialmente unificados, como se todas as crianças e professores fossem uma coisa só?
            Os áulicos do sistema estão confusos e atordoados, uma vez que, apesar da grandeza dos gastos desse filho do tempo, o dinheiro público, os resultados quedam pífios, quando não decrescentes, e resolveram decretar o extermínio até à última das saúvas: maus professores e administradores, turbinando mais uma temporada de caça à estabilidade dos docentes. O problema é que a maior parte das saúvas que hoje os constrange, não passa de projeções da insuficiência de seus próprios projetos, desprovidos tanto de uma pedagogia como de uma psicologia que responda adequadamente às necessidades de jovens e adolescentes modernos, muito mais amplas e complexas que o mero desejo de se dar bem, de conseguir um emprego e se acomodar, como supõe um modelo de educação que só pensa em formar candidatos a exames nacionais ou internacionais – um exemplo típico de insuficiência de projetos e confusão conceitual é o fato de o estado, que é o mais coberto por áreas de proteção ambiental da Federação, e supostamente o mais sustentável, ser o que proporciona os maiores horrores de poluição, como a torrente preta do Tietê
            É o modelo educacional escolhido que está errado, e às vezes parece estar sem direção, como um veículo cheio de gente que, ao fazer uma curva à esquerda, joga todo mundo à direita e vice-versa, embora o caminho seja plano e sem obstáculos, ou ainda um barco a vela querendo pegar todo vento que sopra, seja em que direção for! É preciso refazer a filosofia que move a educação do estado, privilegiando o ganho, o que é positivo, ou seja, os bons alunos e professores, e os métodos psicopedagógicos mais adequados para uma formação mais ampla e de longo prazo, e parar com esses tiros a esmo, tentando atingir a própria sombra.
            Vai acabar acertando o pé.

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