O QUE ANDAM PLANEJANDO
NO BREU DAS TOCAS
Prof Eduardo
Simões
http://imguol.com/c/noticias/2014/12/08/propaganda-da-prefeitura-do-rio-gera-polemica-ao-comparar-educacao-com-linha-de-producao-1418051812819_300x420.jpg
Fonte:
http://educacao.uol.com.br/
Mesmo quem já está acostumado, e
muito acostumado, a esse hospício pegando fogo em que se tornou a educação
brasileira, não deixou de se espantar com a rude sinceridade da última campanha
da gestão do prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, apresentando três
crianças sobre uma esteira rolante (ver foto acima), e uma chamada no mínimo
estrepitosa: “NOSSA LINHA DE PRODUÇÃO É SIMPLES, CONSTRUÍMOS ESCOLAS, FORMAMOS
CIDADÃOS E CRIAMOS FUTURO”. Deus já pode se aposentar.
Enfim, é tudo junto e misturado. Paredes,
ferragens, telhas, sistemas de segurança, os indefectíveis livros e computadores,
etc., além daqueles seres que ocupam a maior parte do espaço nas escolas, que
todos alegam ser a sua maior preocupação, com direito a leis especiais, mas que
ninguém sabe como são: crianças e jovens, pois se soubessem não fariam uma
coisa dessas. Estou cada vez mais convencido da literalidade de uma expressão
que eu só usei até agora como frase de efeito: as nossas autoridades não sabem
a diferença entre uma criança e uma lata de conserva.
Como alguém pode expor, de forma tão
nua e crua, uma propaganda de governo que transforma seres humanos, ainda mais crianças,
em mercadoria, em bens de consumo, porque só numa sociedade sem valores, ou onde
os valores são tão misturados e confusos, tal iniciativa deixa o breu das tocas.
De fato, nas sociedades, onde os cidadãos são usados intensivamente e jogados
fora na primeira oportunidade, principalmente depois de certa idade,
tornando-se descartáveis, é necessário cria-los à mancheias, em sistema como uma
linha de produção, ainda que venham com defeitos de fábrica – nossos empresários
nunca foram de dar muita bola para os consumidores, porque durante séculos boa
parte deles era composta por escravos, ex-escravos e seus descendentes, gente-mercadoria,
recém saída da linha de produção, descartada quando perdia a serventia. As cracolândias
estão cheias dos resíduos da atual linha de produção.
Mas ao fazer isso a Prefeitura do Rio de
Janeiro age muito diferente de outras prefeituras e outros níveis de
administração. Absolutamente não! Aqui em São Paulo é grande a luta que os
professores travam em favor de uma visão mais ampla do processo educacional,
para que este não fique atrelado somente aos resultados do PISA e de avaliações
padronizadas, totalmente estranhas à realidade das escolas e dos alunos. Não seria
o SARESP, a SED, a Nova Proposta Curricular, tentativas para uniformizar, de
cima para baixo, a produção educacional das escolas, ignorando suas incríveis
diferenças sociais? Qual e a diferença disso para a linha de produção de
Eduardo Paes?
Que dizer ainda dos “especialistas”,
em geral profissionais de áreas estranhas à educação, que se tornaram
porta-vozes de uma educação mais “eficiente”, nas páginas de nossos magazines
de maior circulação? Não estão eles obcecados por produtividade, dados estatísticos,
custo-benefício, etc., enfim todos esses jargões que fazem parte da rotina da
linha de produção fabril? Qual é a diferença entre eles e Eduardo Paes? Onde
está o que é especificamente humano no projeto educacional desses doutos opinativos,
que são a afetividade e os valores sociais, afinal os animais também têm
inteligência, e treinados podem fazer melhor o que já fazem rotineiramente,
como também nossas crianças, quando adestradas para a realização de testes
padronizados – o problema é que, de uma maneira geral, elas resistem mais ao
adestramento que os adultos.
Essa peça de propaganda absolutamente
desastrada nos alerta para uma coisa muito importante: é tempo da sociedade
brasileira despertar para a questão educacional, antes que loucos e
aventureiros tornem a vida nas escolas mais insuportável do que já é para
alunos e professores (semana passada fui agredido fisicamente por um aluno de
12 anos, na frente da coordenadora!), pois, ao contrário das chapas metálicas das
latas de conserva, o comportamento das crianças tem um elevado grau de
imprevisibilidade. De resto Eduardo Paes e sua equipe só podem ser acusados de
uma coisa, além de não saber nada de educação e cidadania: excesso de transparência.
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