EDUCAÇÃO

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O QUE ANDAM PLANEJANDO NO BREU DAS TOCAS

Prof Eduardo Simões

http://imguol.com/c/noticias/2014/12/08/propaganda-da-prefeitura-do-rio-gera-polemica-ao-comparar-educacao-com-linha-de-producao-1418051812819_300x420.jpg
Fonte: http://educacao.uol.com.br/

            Mesmo quem já está acostumado, e muito acostumado, a esse hospício pegando fogo em que se tornou a educação brasileira, não deixou de se espantar com a rude sinceridade da última campanha da gestão do prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, apresentando três crianças sobre uma esteira rolante (ver foto acima), e uma chamada no mínimo estrepitosa: “NOSSA LINHA DE PRODUÇÃO É SIMPLES, CONSTRUÍMOS ESCOLAS, FORMAMOS CIDADÃOS E CRIAMOS FUTURO”. Deus já pode se aposentar.
            Enfim, é tudo junto e misturado. Paredes, ferragens, telhas, sistemas de segurança, os indefectíveis livros e computadores, etc., além daqueles seres que ocupam a maior parte do espaço nas escolas, que todos alegam ser a sua maior preocupação, com direito a leis especiais, mas que ninguém sabe como são: crianças e jovens, pois se soubessem não fariam uma coisa dessas. Estou cada vez mais convencido da literalidade de uma expressão que eu só usei até agora como frase de efeito: as nossas autoridades não sabem a diferença entre uma criança e uma lata de conserva.
            Como alguém pode expor, de forma tão nua e crua, uma propaganda de governo que transforma seres humanos, ainda mais crianças, em mercadoria, em bens de consumo, porque só numa sociedade sem valores, ou onde os valores são tão misturados e confusos, tal iniciativa deixa o breu das tocas. De fato, nas sociedades, onde os cidadãos são usados intensivamente e jogados fora na primeira oportunidade, principalmente depois de certa idade, tornando-se descartáveis, é necessário cria-los à mancheias, em sistema como uma linha de produção, ainda que venham com defeitos de fábrica – nossos empresários nunca foram de dar muita bola para os consumidores, porque durante séculos boa parte deles era composta por escravos, ex-escravos e seus descendentes, gente-mercadoria, recém saída da linha de produção, descartada quando perdia a serventia. As cracolândias estão cheias dos resíduos da atual linha de produção.
             Mas ao fazer isso a Prefeitura do Rio de Janeiro age muito diferente de outras prefeituras e outros níveis de administração. Absolutamente não! Aqui em São Paulo é grande a luta que os professores travam em favor de uma visão mais ampla do processo educacional, para que este não fique atrelado somente aos resultados do PISA e de avaliações padronizadas, totalmente estranhas à realidade das escolas e dos alunos. Não seria o SARESP, a SED, a Nova Proposta Curricular, tentativas para uniformizar, de cima para baixo, a produção educacional das escolas, ignorando suas incríveis diferenças sociais? Qual e a diferença disso para a linha de produção de Eduardo Paes?
            Que dizer ainda dos “especialistas”, em geral profissionais de áreas estranhas à educação, que se tornaram porta-vozes de uma educação mais “eficiente”, nas páginas de nossos magazines de maior circulação? Não estão eles obcecados por produtividade, dados estatísticos, custo-benefício, etc., enfim todos esses jargões que fazem parte da rotina da linha de produção fabril? Qual é a diferença entre eles e Eduardo Paes? Onde está o que é especificamente humano no projeto educacional desses doutos opinativos, que são a afetividade e os valores sociais, afinal os animais também têm inteligência, e treinados podem fazer melhor o que já fazem rotineiramente, como também nossas crianças, quando adestradas para a realização de testes padronizados – o problema é que, de uma maneira geral, elas resistem mais ao adestramento que os adultos.
            Essa peça de propaganda absolutamente desastrada nos alerta para uma coisa muito importante: é tempo da sociedade brasileira despertar para a questão educacional, antes que loucos e aventureiros tornem a vida nas escolas mais insuportável do que já é para alunos e professores (semana passada fui agredido fisicamente por um aluno de 12 anos, na frente da coordenadora!), pois, ao contrário das chapas metálicas das latas de conserva, o comportamento das crianças tem um elevado grau de imprevisibilidade. De resto Eduardo Paes e sua equipe só podem ser acusados de uma coisa, além de não saber nada de educação e cidadania: excesso de transparência.


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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A GRANDE VERDADE E A GRANDE MENTIRA

Prof Eduardo Simões


https://assets.digital.cabinet-office.gov.uk/government/uploads/system/uploads/image_data/file/20004/boys_in_school_960x640.jpg
Fonte: www.gov.uk/

Cada povo deve construir a sua escola de acordo com as suas possibilidades e tradições culturais, evitando atrelar-se a modelos externos, principalmente aqueles que são superficiais e vazios de conteúdo significativo, como os testes do PISA. A avaliação será sempre a consequência do sistema e nunca a sua causa, logo é uma aberração que alguns queiram que o resultado do PISA, criado para atingir objetivos estranhos ao nosso sistema educacional e à nossa cultura, determine o caráter do nosso sistema de ensino.

            É verdade que um país, para se tornar uma potência no sentido mais amplo do termo, precisa antes de tudo garantir educação de alto nível para as suas crianças e jovens. Tal é o caso da Argentina, um país pioneiro em matéria de educação pública, principalmente no governo de Domingos Faustino Sarmiento, de 1868 a 1874, quando uma vigorosa reforma educacional tomou forma e ajudou a lançar a nação para a quarta economia do mundo, no início do século XX, além de projetá-la no cenário da literatura mundial, confirmada por vários Prêmios Nobel.
            É mentira, e grande, porém, afirmar que, nos dias de hoje, o melhor caminho para um país atingir a excelência educacional seja atrelar o seu sistema educacional aos resultados do PISA, por um fato muito simples: não há nenhum país que tenha obtido, primeiro, grandes notas no PISA, e depois se tornado uma potência econômica ou social, mas, pelo contrário, primeiro os países se tornam grandes potências econômicas e sociais para depois conseguirem boas notas no PISA, de onde só podemos tirar duas conclusões:
            a) A educação não é relevante para o progresso de um país.
            b) O PISA não é relevante para o progresso da educação, e por tabela do país, pois apenas espelha o sucesso já alcançado pela maturação do sistema educacional e econômico construídos muito antes, e que não precisam do PISA para mostrar a sua pujança – este vale mais como um fator de propaganda política, como uma cereja sobre a cobertura de um bolo.
            O PISA é tão vinculado à realidade econômica e tão alheio ao que acontece na educação, que a Argentina, com sua poderosa tradição educacional, tem ficado sistematicamente atrás do Brasil nos últimos testes, embora em 2000 estivesse bem à frente, e em 2006 só um pouco acima, refletindo descaradamente o colapso paulatino da economia e da sociedade, sob os desmandos da Kirchner local. Ademais, prosseguem os burocratas e os oportunistas de sempre, agitando, conforme a conveniência, as bandeiras que mais lhes convém, esfarelando despudoradamente os resultados dos testes, citando a China, quando convém criar metas ambiciosas e mais disciplina nas escolas, e a Coreia ou a Polônia, quando o que interessa é acabar com a estabilidade dos professores.
            Mas a lição que fica do conjunto dos dados é única e cristalina. Se é que nós vamos continuar nos espelhando no PISA, é preciso fazer a revolução econômica, social e moral da sociedade para começarmos a atingir bons resultados nesses testes, caso contrário, mesmo sem abandonar as premissas revolucionárias citadas, devemos recriar e aprimorar nossas próprias metas educacionais, em função de nossas tradições e necessidades, e aí a escola pode ser um elemento dinamizador fundamental, modificando, inclusive relações administrativas no âmbito das escolas, sem a necessidade de passar pelo PISA, da mesma forma que Colombo descobriu a América, sem precisar passar pelos Estados Unidos.


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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SEM LENÇO, DOCUMENTO OU DIREÇÃO

Prof Eduardo Simões


http://i73.photobucket.com/albums/i236/jazzntime/hippiebusLisaShaw.jpg
Fonte: http://swampbubbles.com/
La vai o carro da educação brasileira. Segure-se quem puder!
            Quem não quer perder nada também não ganhará nada, e muito pobre há que por se preocupar em demasia com a perda dos tostões não tem tempo nem inteligência para ganhar os milhões.
            O governo estadual anda preocupado com os gastos da educação, note-se a Secretaria Escolar Digital, as visitas de agentes do Tribunal de Contas, etc., sem falar de outros sinais dos tempos: no início do ano a ordem era criar projetos, fazer gastos, hoje se controla até o papel higiênico, e só se fala em cortes financeiros para 2015, redução de salas de aula, etc., tudo para controlar os tostões. E a mina de ouro da pedagogia?
            Os antigos brasileiros eram mais realistas e sábios. Percebendo que seria impossível controlar todos os fatores envolvidos em um projeto humano, mesmo os menores, eles reconheciam a lógica e a necessidade de aceitar alguma perda pelo imponderável, hoje esquecido nos modernos projetos megalômanos, onde é quantificável, até o mais ínfimo centavo de ganhos e perdas, como se a sensação de controle dos executores do projeto importasse mais que os objetivos deste. Hoje se fala em perda zero, fome zero, etc., enquanto os antigos falavam da parte das saúvas.
            A verdade é que as saúvas da incompetência pessoal, da desonestidade coletiva, do imponderável natural sempre ficarão com uma parte do investimento de um projeto, que será tanto menor quanto mais claro, detalhado e realista for o objetivo em mente, na escola isso se chama projeto pedagógico, cuja finalidade é aprimorar o potencial transformador da inteligência de alunos e professores. Como fazer isso sem psicologia ou com uma pedagogia que só consegue projetar resultados numéricos de exames artificialmente unificados, como se todas as crianças e professores fossem uma coisa só?
            Os áulicos do sistema estão confusos e atordoados, uma vez que, apesar da grandeza dos gastos desse filho do tempo, o dinheiro público, os resultados quedam pífios, quando não decrescentes, e resolveram decretar o extermínio até à última das saúvas: maus professores e administradores, turbinando mais uma temporada de caça à estabilidade dos docentes. O problema é que a maior parte das saúvas que hoje os constrange, não passa de projeções da insuficiência de seus próprios projetos, desprovidos tanto de uma pedagogia como de uma psicologia que responda adequadamente às necessidades de jovens e adolescentes modernos, muito mais amplas e complexas que o mero desejo de se dar bem, de conseguir um emprego e se acomodar, como supõe um modelo de educação que só pensa em formar candidatos a exames nacionais ou internacionais – um exemplo típico de insuficiência de projetos e confusão conceitual é o fato de o estado, que é o mais coberto por áreas de proteção ambiental da Federação, e supostamente o mais sustentável, ser o que proporciona os maiores horrores de poluição, como a torrente preta do Tietê
            É o modelo educacional escolhido que está errado, e às vezes parece estar sem direção, como um veículo cheio de gente que, ao fazer uma curva à esquerda, joga todo mundo à direita e vice-versa, embora o caminho seja plano e sem obstáculos, ou ainda um barco a vela querendo pegar todo vento que sopra, seja em que direção for! É preciso refazer a filosofia que move a educação do estado, privilegiando o ganho, o que é positivo, ou seja, os bons alunos e professores, e os métodos psicopedagógicos mais adequados para uma formação mais ampla e de longo prazo, e parar com esses tiros a esmo, tentando atingir a própria sombra.
            Vai acabar acertando o pé.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O FIM DE UM MITO... E É UMA PENA!

Prof Eduardo Simões


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Fonte: http://educador.brasilescola.com/

            Sempre soube que a melhor forma de um professor fazer os alunos se interessarem por sua matéria seria ganhá-los afetivamente, criar laços de amizade e sadio companheirismo, sem chegar às intimidades ou “coleguismo” intolerável, como normalmente acontece com os professores mais jovens no início da carreira. Com base nessa crença, reforçada pela leitura de autores prestigiosos, como Paulo Freire e Lauro de Oliveira Lima, sempre primei por ter uma relação bastante horizontal com meus alunos, com vista ao aumento de produtividade e maior motivação deles para os conteúdos de minha matéria; mas algo não está dando certo!
            Na última exposição de trabalhos que participei na escola onde leciono, para “turbinar” a vitrine de história, expus várias revistas estrangeiras de história, com capas bem chamativas e nunca vistas antes por eles, não sem antes ter passado uma meia hora fazendo algo que eles adoram: competição de perguntas e respostas, que atraiu um enxame de alunos de várias turmas ao meu redor. Naquele momento eu fui o centro das atenções.
            Entretanto, quando as salas se abriram para os alunos apreciarem a exposição, ninguém parou diante das revistas nem lhes fez qualquer referência posteriormente, sequer teve curiosidade em folheá-las, como se elas já fizessem normalmente parte de seu cotidiano, o que não é verdade, ou eu fosse um professor especialmente detestado, o que também não é verdade – se eu o sou, então eles disfarçam muito bem, muito além do que normalmente se faz em escola pública, onde o mau professor é o primeiro a ser colocado contra a parede, mesmo quando não seja mau. Para mim ficou evidente o desinteresse, apesar de tudo, pela minha matéria.
            Daí surge a questão: se eu não sou particularmente detestado pelos alunos, se sou um professor que raramente falta e procura sempre chegar entusiasmado em sala de aula, dizendo “que legal, vamos trabalhar!” Por que esse desinteresse? É verdade que existe em curso no nosso estado uma política de desvalorização premeditada da história – reduziram muito a sua carga horária no Ensino Médio; misturaram História do Brasil com Geral, começando por esta; não é sempre que história é avaliada pelo SARESP; etc. – que deve causar, como sequela, esse desinteresse, sem falar de uma abordagem excessivamente ideologizada, voltada para a descrição de grandes estruturas, tão interessante quanto a leitura de um balancete de empresa. Na minha juventude a história era a segunda opção da maioria dos vestibulandos. Quantas vezes não ouvi “só não faço história porque não dá dinheiro”. Há um desinteresse visceral dos alunos pela matéria, que já está se tornando um traço da nossa cultura (mas para onde nós iremos sem história?), capaz de resistir, inclusive, à amizade ao professor.
            Moral da história, sem trocadilho, vivemos na educação a lei da menos valia, da seguinte maneira: se o professor for mau profissional ou hostil aos alunos ele pode esperar com certeza resultados ruins em sua matéria, mas se ele for apreciado pelos alunos não deverá, como consequência, esperar bons resultados. O sistema perde, cada vez mais, a sua racionalidade, ou são os imaturos que, como era de se esperar, não sabem fazer bom uso do poder que lhes é concedido pelas “autoridades”, e a aprovação automática, junto com outras medidas paternalistas, conduziram-nos à extrema banalização de tudo o que acontece na escola.
            É só continuar fingindo que está tudo bem.
           

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

O BAILE DOS CUCARACHAS

Prof Eduardo Simões


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fonte: http://deniseludwig.blogspot.com.br/

            Tive uma 7ª série muito especial, em uma escola de Lorena, pois o núcleo da turma, uma meia dúzia de garotas muito inteligentes e cheias de iniciativa, formavam uma espécie de comunidade ‘emo’, que, por razões óbvias, ficaram muito animadas por fazer, na escola, uma festa de Halloween, em outubro, e me pediram para ser o patrono da festa, uma vez que esta havia sido uma das condições impostas pela diretora. Não me agradou o convite-homenagem, feito no início de uma aula, e insistentemente repetido, até que eu disse que toparia, mas que eles primeiro teriam que ouvir e refletir numa história verdadeira acontecida comigo.
            Lá pela metade dos anos 80, um tio meu, Antero, recém-chegado dos Estados Unidos, foi à casa de meus pais, e começou a falar da viagem. Aproveitei para perguntar-lhe: “tio, o que é que os americanos pensam de nós?” Minha tia, Aída, tomou a palavra e disse: “você já viu a capa do novo livro do Henfil, ‘Diário de um cucaracha’?” – Henfil, para quem não sabe, foi um célebre cartunista, que, perseguido pelos militares, passou uma temporada nos “Esteites”, e narrou suas aventuras nesse livro. “Sim”, respondi-lhe, e de fato a capa era inesquecível, pois trazia uma ilustração colorida, quase foto, de uma enorme barata (tradução do espanhol “cucaracha”) vermelha. “Pois é exatamente assim que eles nos veem, e se pudessem fariam assim conosco”, e imitou o gesto de uma pessoa que esmaga uma barata com a ponta dos pés.
            Nessa altura do relato, eu aproveitei para lembrá-los que, em junho, eles havia se recusado terminantemente a dançar a quadrilha, na Festa Junina, sob a alegação de que era “mico”. E eu então perguntei-lhes: “os americanos estarão, por ventura, preocupados em aprender a nossa língua, como nós aprendemos a deles, o nosso folclore, sobre nossas festas e em dançar a quadrilha, já que os jovens brasileiros não querem mais dançá-la?” “Não”, responderam eles, já meio desconfiados. Continuei: “vamos supor que um americano venha aqui, à nossa escola, no momento em que vocês estiverem festejando o Halloween, o que acontecerá? Ele se sentirá em casa ou vai dizer para si mesmo: ‘olha os cucarachas querendo virar gente!’ ?” “Olha os cucarachas querendo virar gente!” disseram alguns já com um fiozinho de voz. Seguiu-se um silêncio.

            Nunca mais eles tocaram nesse assunto nem comemoraram o Halloween.

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LUCIANO HUCK OU A VERGONHA DE SER BRASILEIRO

Prof Eduardo Simões


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http://www.taringa.net/
            Faço a chamada no 1º Ano do Ensino Médio. “Caroline!”. Uma aluna, uma graciosa mulata, vem até mim e pergunta: “como está escrito?” Estranhei, mas soletrei para ela. “Está errado, é com dois ípsilones”. Conferi de novo o nome é lá estava: Caroline. Fui à secretaria da escola e pesquisei na sua ficha de matrícula e nas fotocópias de documentos. “Nos seus documentos está escrito com ‘i’ e ‘e’!” Ela insiste: “mas eu quero que seja escrito com dois ípsilones”. Escaldado pela enorme quantidade de alunos com nomes estropiados, na tentativa de pais semianalfabetos em reproduzir termos da cultura inglesa – já tive até uma “Kerollen” – tentei lhe convencer já estava perfeitamente adequado à grafia inglesa original, até lhe ensinei a pronúncia: “kerolain”, mas não adiantou; a cultura inglesa era muito pouco “inglesa”, para ela. Logo ela, que só pelas características raciais, poderia sofrer preconceito se fosse morar no principal atrativo da cultura inglesa: os EUA. Pelo menos, ela não mais correria o risco de ser esterilizada, sem o saber ou sofrer linchamento público, como amargaram as pessoas de pele escura algumas décadas antes. Coisa que ela, e os outros, nem imaginam.
            Isso me preocupa, pois historicamente era apenas a elite econômica que costumava mostrar ojeriza pelo povo e a cultura da terra, tendo sido necessário um monumento literário do porte de um “Sertões”, de Euclides da Cunha, de 1902, para mostrar às nossas elites da época, que havia um Brasil para além de seus muros e das vitrines de Paris, uma elite deveras ingrata, pois devia os imensos privilégios e prestígio ao povo e ao país que tanto desprezava, e que não os experimentaria em nenhum outro local do mundo “civilizado”, tanto a seu gosto.
            Bem, já que não dá para se transferir para Europa ou Estados Unidos, carregando os privilégios junto, porque não tentar trazer o mundo “civilizado” para cá, assegurando, a manutenção do privilégio e da fama. Semana passada, um quadro do progrma de Luciano Huck, chamado “Um por todos. Todos por um”, frase retirada do romance “Os três mosqueteiros”, do francês Alexandre Dumas, penso, chamou-me a atenção.
            Tudo começou com a descoberta de um projeto extremamente meritório, de um agente penitenciário de Aquidauana, MS, uma cidade cujo nome está ligado a um dos mais imponentes e esquecidos feitos militares da história de nosso país: a Retirada da Laguna, em 1867, quando quase dois mil homens e mulheres deram a sua vida ou o seu sangue, para que aí se continuasse falando português e valendo as nossas leis. Que prevalecesse a nossa cultura.
            Descoberto por Huck, o emotivo e bem brasileiro agente, instrutor de basquete nas horas vagas, foi envolvido, junto conosco, em uma aventura de mágica, que contou com a presença de astros genuinamente nacionais como Oscar Schmidt e Hortência Marcari, sendo o tal agente, inclusive, levado pela produção do programa para assistir um jogo do Cleveland Cavaliers, onde conheceu Anderson Varejão, e a frase slogan do time: “All for one. One for all!”. O título, em inglês, do quadro de Luciano Huck!
            Tudo bem, nada de mais, como nada de constrangedor havia no presente que a produção deu ao agente ao turbinar, com uma bela reforma, o espaço a ser usado pelos alunos do agente, em geral filhos de presidiários e gente pobre, não fosse o nome escolhido, pela produção, para o time recém-criado: “AQUIDAUANA ALLIGATORS”, exatamente como é o costume nos Estados Unidos e Canadá, inclusive com a inversão, na frase, entre possuidor e a coisa possuída, como ocorre na língua inglesa.
            Aligátor, amigo, é um animal que só existe nos Estados Unidos, no Brasil, se é que é para por um nome de animal, conforme o costume americano, o que existe são jacarés. Qual a razão dessa cópia tão grosseira de um costume americano no interior do Brasil, no centro da América do Sul, tão abandonada e esquecida pelos “brothers”? Por que razão impor, de foram tão agressiva, ao povo pobre de Aquidauana, vergonha por sua própria cultura, ou será que todos vão conseguir olhar para aquele escudo do time, onde está escrito “alligators”, e ler sem dificuldade “aligueirô”, como Luciano Huck fez questão de ressaltar e até gritar, no final do programa, como que para ninguém esquecer a pronúncia correta do inglês dos EUA? Por que razão é importante que as pessoas se sintam analfabetas, ou inferiores, toda vez que olharem para o escudo do seu time de coração e não entenderem nada, até ficarem com vergonha por viverem em um lar ou em uma cidade onde só se fala português? O Departamento de Estado dos EUA, alguma empresa de lá, pelo menos, financiou alguma coisa? Eles vieram de lá trabalhar no projeto? Se isso aconteceu, por que foi omitido?
             Isso não é brincadeira, estamos ignorando coisa séria e está na hora de termos mais cuidado e zelo nossa cultura. Certa vez eu estava dando aula e pronunciei displicentemente “eipou”, a propósito de “apple”, afinal eu não faço nenhum esforço em ser castiço na pronuncia do meu inglês no meu país – eu sou brasileiro e não americano ou inglês – quando um aluno, semianalfabeto em português e analfabeto em história do Brasil, por resistir à aprendizagem, me interrompeu para corrigir: “é épou”. Ou seja, enquanto nas universidades doutores e mestres recomendam não corrigir os erros de português dos alunos, a pretexto de preservar a autoestima, constrangimento de classe ou sei lá que outra mitologia, os brasileiros, alguns semianalfabetos, estão se cobrando nas ruas a pronuncia correta do inglês, e o programa de Luciano Huck, infelizmente, deu mais força a esse desatino.
            E quem fica na corda bamba numa realidade como esta? A principal fonte de cultura luso-brasileira: a escola com os seus professores, vistos cada vez mais como antifuncionais, porque tentam passar conhecimento e valores que programas como os de Luciano Hulk afirmam gratuitamente ser inadequados ou ultrapassados, na melhor das hipóteses, ou talvez ele, como a maioria, nem saiba o que está fazendo, afinal tem um quadro felicíssimo chamado “soletrando”, ainda que baseado em antiquíssimas competições americanas de soletração. Mas vale, é uma boa iniciativa.

            Como a escola e professores podem resistir a pressões dessa envergadura e garantir uma boa qualidade e quantidade de aprendizagem? Enquanto isso, “especialistas”, mobilizados pelas principais revistas do país, clamam ter encontrado a solução à descaracterização e desvalorização da cultura e o seu prolongamento necessário, a desvalorização do conhecimento adquirido nessa cultura: a culpa é dos professores e a solução é acabar com a estabilidade no emprego e quaisquer outras vantagens para a carreira, afinal ele é um profissional como outro qualquer, da mesma forma que as crianças, os seres humanos, são um bem como outro qualquer? Afinal não é nisso que se acredita nos Estados Unidos?

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sábado, 22 de novembro de 2014

PROFESSOR BOM É AQUELE QUE PODE SER DEMITIDO

Prof Eduardo Simões


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Fonte - http://fotografia.folha.uol.com.br/

            O número 858, de novembro, da revista ÉPOCA, trouxe uma matéria esperançosa para os profissionais da educação com o título “DEPENDE DELE”, esclarecendo na subchamada: “...um fator [para o progresso do aluno] importa muito mais que os outros: o professor”, de autoria da senhora Camila Guimarães, mas que, ao invés de revelar e explorar os benefícios e as características evidentes de um “bom” professor, inclusive nos esclarecendo melhor o que seria essa categoria ou conceito tão subjetivo, abriu a matéria com o relato um processo ocorrendo no estado da Califórnia (EUA), onde um grupo de alunos, se sentindo lesado pelo mal desempenho de um ou vários professores, resolveu pedir uma indenização – a autora do artigo, acrescenta que o juiz considerou que, “o Estado da Califórnia fere a Constituição [dos EUA], ao manter a estabilidade de emprego e outras leis de proteção aos professores, porque isso dificulta a demissão de professores ruins” – e nessa batida seguiu até o fim da matéria.
            Daí já surge a primeira questão que desmente cabalmente a articulista e o próprio juiz da causa: o estado da Califórnia tem apresentado, “apesar” de seus professores estáveis, uma melhora  significativa no ranking da educação americana, nos últimos cinco anos, conforme se pode ler no site da revista Veja, http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/demitir-professores-ineficientes-e-uma-decisao-correta, uma revista campeã na luta pela demissão de professores, sem falar dos dados do Departamento de Educação da Califórnia encontrados em http://www.cde.ca.gov/ta/ac/ap/highestapiscore13.asp.
            É deveras notável como, em nosso país, toda vez que alguém fala em promover ou valorizar o professor ou a educação começa sempre a se queixar da impossibilidade de demiti-lo, nas escolas públicas, que o transforma no único profissional cujo valor não é medido pela importância de sua função social nem por sua qualificação intrínseca, mas antes por sua provisoriedade; quanto mais, melhor. Aliás, nessas matérias raramente se busca a opinião direta dos professores sobre esses assuntos, ficando esta restrita a uma única e opaca participação de algum representante do sindicato, como aconteceu na matéria de ÈPOCA, mostrando que o objetivo da matéria, esta e outras, não é tanto aprofundar uma questão, da mais alta relevância, creio, mas antes propagandear uma posição previamente assumida, seja pelo autor do texto seja pelo veiculo de sua publicação, ou ambos.
            Camila Guimarães chega a citar Amanda Ripley como “autoridade” em assuntos educacionais, por meio desta pérola: “[Polônia, Finlândia, Coreia] São diferentes países com diferentes culturas e tamanhos, com poucas coisas em comum”. Mas aí a situação começa a degringolar para o lado da seriedade da matéria: Primeiro, Amanda Ripley não é nenhuma especialista em educação ou professora de sala de aula, que possa abalizar com a autoridade de uma vivência, pelo menos, aquilo que diz, pois ela é jornalista. Segundo, a avaliação que ela faz sobre os três países citados é absolutamente pueril e de uma superficialidade estonteante, como se nessas questões o que valesse fosse apenas a quantidade e não a qualidade, sem falar que é preciso forçar bastante para até para ver as diferenças menos fundamentais.
            Quanto ao fato dela ser jornalista não me prolongarei mais, pois todos sabem o quanto essa categoria profissional tanto mais é ciosa de seus saberes, quanto mais é ousada em avaliar saberes alheios e portar-se como especialistas em outras áreas, e como eu não sou especialista em jornalismo ou comunicação... Mas se analisarmos melhor no que esses países se assemelham veremos algumas coisas notáveis: Em termos de área Polônia e Finlândia são iguais e três vezes maiores que a Coreia; em termos de população Polônia e Coreia não diferem tanto, mas se distanciam muito da Finlândia – nada que se compare ao Brasil, 27 vezes maior que o maior deles: a Polônia. Avancemos. O IDH de um é 35, do outro 24, e do outro 15; não é tanta diferença assim – já o IDH do Brasil é 79! E quanto à desigualdade interna.
            E a desigualdade econômico-social interna? Segundo o coeficiente de Gini de 2009,  Polônia e Coreia estão no mesmo patamar, enquanto a Finlândia está um patamar acima – o Brasil está 5 patamares abaixo dos primeiros! Se o índice usado for o P90/P10, a conclusão é a seguinte: “No Brasil a concentração de renda é tão intensa que o índice P90/P10 está em 68 (2001). Ou seja, para cada Dólar que os 10% mais pobres recebem, os 10% mais ricos recebem 68. O Brasil ganha apenas da Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Segundo dados do Human Development Report (HDR) – Organização das Nações Unidas (ONU), de 2004, o Brasil apresenta historicamente uma desigualdade extrema, com índice de Gini próximo a 0,6. Este valor indica uma desigualdade brutal e rara no resto do mundo, já que poucos países apresentam índice de Gini superior a 0,5. Dos 127 países presentes no relatório, o Brasil apresenta o 8º pior índice de desigualdade do mundo, superando todos os países da América do Sul e ficando apenas à frente de sete países africanos” http://www.if.org.br/artigo.php?codArtigo=105&PHPSESSID=acb5440382518545d00877951637980b. 
            E quanto à homogeneidade étnica? Na Coreia, 98% da população são coreanos étnicos; na Polônia, 98,7% são polacos étnicos, e na Finlândia 91% são fineses – compare-se isso à salada étnica brasileira (47% brancos, 43% pardos, 7% negros, 2% de asiáticos, 1% índios ou sem raça, cada grupo com uma visão de cultura ou nação diferente, entremeados por levas de imigrantes da mais variada procedência). Os finlandeses estabilizaram a base de sua cultura, a língua, entre 3.500 e 1.000 antes de Cristo; os poloneses remontam suas raízes a assentamentos datados de quase 800 antes de Cristo e os Coreanos fazem a sua cultura remontar a 2333 antes de Cristo, embora os chineses só os citem lá por volta do 7º século... antes de Cristo! Compara-se isso aos 500 anos do Brasil! Ou seja: quem não é especializado em comentar educação já percebeu que as poucas coisas que aproximam esses países, e nos afastam deles, são justamente as que interessam, e que fazem toda a diferença quando se trata tanto de conseguir as primeiras colocações em exames internacionais assim como de aplicar aqui coisas que deram certo lá!
            Mas mesmo que queiramos seguir o padrão intermediário americano, as diferenças são tão gritantes que não dá para não falar nelas. Comecemos pela percepção da natureza do processo educacional. Nos EUA há indicativos fortes que nos informam estar bem claro para a sociedade que a escola e os professores realmente são fundamentais, e que a relação entre eles envolve muito mais que apenas transmissão de informações, e que o professor tem algo a dizer sobre aquilo que faz à sociedade, ao contrário do que ocorre aqui, quando o professor é ignorado nas reformas e manipulado por secretárias de educação vinculadas, em primeiro lugar, a interesses políticos, nem sempre colocados com clareza para a população – é preciso falar mais disso?   Não se trata, como imaginam as mentes mais apressadas, de reles um transmissor de conhecimento passando informações para um receptor; de um professor, que vai dar turbinar o receptor do aluno, para que ele possa digerir informações mais complexas, como acontece numa linha de produção fabril. Existe entre o aluno e o professor tal gama de possibilidades de acertos e equívocos, muito acima da vã sabedoria dos “especialistas”, que jamais puseram os pés, senão em visita, dentro de uma sala de aula da educação fundamental. Vejamos outros detalhes.
            a) existe nos EUA uma antiga e poderosa classe média que sempre deu mostras de entender e valorizar o papel da escola, inclusive a pública, a ponto de lotar ginásios para discutir questões relacionadas á administração da escola e cuidados com os alunos, etc. Onde isso acontece aqui? Uma pesquisa recente no site da revista Veja acima citada, deu que o levantamento de uma ONG constatou que apenas 12 % dos pais de alunos de escola publicas e privadas se importam para valer com o que acontece na escola de seus filhos, e qualquer professor de escola pública pode testemunhar do acerto dessa pesquisa. Agora, se a classe média brasileira, que só frequenta a escola pública, em geral, quando aperta uma crise econômica, onde, também no geral, se destaca mais na luta por privilégios para o seu filho que pela qualidade da escola como um todo, e foge dela logo que a crise é superada, como evitar que políticos interesseiros e mal intencionados, ainda que “raros” em nosso país, intervenham no sentido de demitir bons professores para empregar os seus apaniguados?
            É comum, e antigo, nos EUA, acontecimentos escolares empolgarem a comunidade e até a nação, fazendo-os discutir intensamente sobre temas relacionados à educação, como aconteceu, por exemplo, no célebre julgamento do Macaco de Scopes, quando um professor John Scopes, tentou ensinar a teoria da evolução numa escola do Tennesse, em 1925! Desse julgamento participou um dos políticos mais influentes do país e candidato à presidência! Quando isso já aconteceu aqui? Inclusive neste momento estamos discutindo uma questão educacional lançada a partir de lá!
            b) Quem não educa seus filhos e não os manda regularmente à escola, nos EUA, pode perder, para valer, e em pouco tempo, a guarda deles, tal é o valor que se dá a essa instituição e à obrigação que as famílias têm de educar seus filhos. Quem der aulas numa escola pública brasileira, salvo raras exceções, sabe o quanto ainda estamos longe dessa realidade.
            c) A questão da disciplina dentro das escolas americanas, em geral, é seríssima, um desacato ao professor pode gerar graves problemas para o menino ou seus pais, dependendo da idade do aluno e da natureza do crime. Garotos que cometem assassinato podem pegar até prisão perpétua, e quase não se houve falar de estudantes fazendo distribuição de drogas dentro da escola. É preciso dizer o que acontece neste país acerca disso? É fácil, para quem está fora de sala de aula, dizer que se trata apenas de repressão pela repressão, mas a verdade é que a sociedade americana age assim por dois motivos: sabe que está lidando com um imaturo, que muitas vezes tem a necessidade de sentir o braço pesado da lei, antes para se convencer que estas devem ser respeitadas, faz parte da aprendizagem, ao mesmo tempo em que eles, os americanos, têm consciência que o professor é a primeira imagem que os jovens vão ter do Estado, e se eles não respeitarem aquele, fatalmente não respeitarão a este. Nós, que ignoramos essa realidade tão básica estamos lutando palmo a palmo, sangrentamente, para não perdemos o controle da segunda maior cidade do país para o crime organizado, enquanto experienciamos temporadas de matança generalizada de policiais no Estado mais poderoso. Isso por lá não existe, e se aprende na escola.
            d) o salário médio do professor americano é 55 mil dólares/ano (137 mil reais, 10 mil por mês, se considerarmos nossos 13 salários anuais, sem contar que as coisas nos EUA são muito mais baratas que aqui, de tal sorte que o seu poder de compra se aproximaria de uns 150 mil reais). O estado mais rico, nova York, paga 73 mil dólares/ano (185 mil reais) e o mais pobre, Dakota do Sul, 38 mil dólares/ ano (95 mil reais, cerca de 7.300 reais por mês). Confira http://www.cde.ca.gov/fg/fr/sa/cefavgsalaries.asp. É preciso acrescentar algo?
            Prestigiado pela sociedade, protegido pelas autoridades, bem pago, até para os padrões americanos, esse professor decerto precisa apresentar resultados e justificar o imenso investimento feito pela sociedade na sua função; tal é o que acontece no Brasil? A resposta é um sonoro “NÃO”, pois o professor ganha mal até para padrão salarial do Brasil, sendo necessário que se votem leis, tipo piso salarial, para evitar que em algumas unidades da federação ou microrregiões os professores sejam extintos, sem falar de outros problemas inimagináveis por seus colegas americanos, como ser brutalmente agredido dentro da escola, física e moralmente, e no dia seguinte ver o seu agressor em sala, como se nada tivesse acontecido. O poder desmotivador de uma política de tão desmoralizante não deve ser desprezado.
            Nesses últimos anos, é forçoso reconhecer, as nossas autoridades foram muito bem sucedidas em recriar uma nova visão de escola, quiçá mais “moderna”, na sociedade brasileira. O professor passou a ser visto como uma babá de luxo e as escolas simples “depósitos de crianças”! Assim sendo, não é de estranhar que esteja se tornando comum a invasão da escola por pais furiosos, seja por que motivo for, para agredir fisicamente a professores, e até diretores, afinal em quem se vai bater nesse país, agora que as domésticas conseguiram equiparação com as outras categorias profissionais e começam a se libertar do elo escravista que as mantinham reféns de todo tipo de violência? Se esse é um quadro real da nossa escola, e isso é, aparentemente, o que a sociedade aceita como razoável, ao retirarmos a estabilidade estaremos retirando um dos poucos atrativos, em alguns casos o único, que a profissão ainda oferece, em um país onde, segundo estatísticas, faltam algo em torno de 250 mil professores, gente apenas para dar aulas, sem qualquer consideração com a qualidade de seu serviço. É uma emergência!
            A senhora Camila fala de “bons professores” como se o termo “bom” não fosse um adjetivo sujeito a toda sorte de interpretação subjetiva, como ocorre a todos os adjetivos. Existem até cartilhas e reportagens, falando desse ou daquele modelo de professor, altamente idealizado, mas quem esteve em sala de aula sabe que isso não existe, e que o professor que agrada aos bons alunos, não agradará aos maus, e vice-versa, inclusive alguns há que podem até agradar aos alunos no conjunto, mas não agradam em nada a diretores e burocratas. Eu conheço essa realidade muito de perto. Quem vai definir a sua permanência no sistema? Para não falar de uma serie de outros fatores que “invadem” o dia a dia da escola, inclusive o crime organizado, com a distribuição escancarada de drogas. E se os alunos ligados ao crime organizado resolverem fazer uma campanha, um abaixo assinado, contra um professor que ouse enfrenta-los, pensando no bem de seus alunos, quem seria louco de não assinar?
            Uma pessoa é boa ou ruim em função dos valores cultuados em uma sociedade, em especial aqueles mais elevados, posto em relevo pela função que ela exerce no meio social. Qual é o valor mais cultuado e elevado na nossa sociedade além do dinheiro, com a miríade de escândalos por ele produzidos, capazes de nos tomar quase metade dos nossos mais importantes telejornais, por meses a fio, inviabilizando as tentativas que fazemos, diariamente,  junto com nossos alunos, para que eles creiam que ainda vale a pena ser honesto e respeitar as leis? Esse mesmo valor que hoje brada, pela pena de “ilustres” personagens, que a desestabilidade do professor é o melhor caminho para curar os males da nossa educação, como se este, pelo seu conhecimento e pela sua obrigação de julgar e avaliar crianças, de preparar o futuro da nação, não merecesse como, os juízes, as mesmas garantias de estabilidade ou a inamovibilidade, numa sociedade onde os valores não são estáveis.
            Acenar a essa altura com a quebra da estabilidade dos professores, como a grande panaceia, em um sistema que desaba de podre e de descrédito, sem abarcar ao mesmo tempo todos os outros inúmeros fatores que comprometem muito mais gravemente a qualidade de nossa escola, é jogar lenha ainda mais na crise, apenas para seguir um modismo ou soluções alienígenas, e confirmar a sabedoria dos antigos que afirmavam que “Deus começa por tirar o juízo daqueles que vão se perder”.

           
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