EDUCAÇÃO

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O BAILE DOS CUCARACHAS

Prof Eduardo Simões


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fonte: http://deniseludwig.blogspot.com.br/

            Tive uma 7ª série muito especial, em uma escola de Lorena, pois o núcleo da turma, uma meia dúzia de garotas muito inteligentes e cheias de iniciativa, formavam uma espécie de comunidade ‘emo’, que, por razões óbvias, ficaram muito animadas por fazer, na escola, uma festa de Halloween, em outubro, e me pediram para ser o patrono da festa, uma vez que esta havia sido uma das condições impostas pela diretora. Não me agradou o convite-homenagem, feito no início de uma aula, e insistentemente repetido, até que eu disse que toparia, mas que eles primeiro teriam que ouvir e refletir numa história verdadeira acontecida comigo.
            Lá pela metade dos anos 80, um tio meu, Antero, recém-chegado dos Estados Unidos, foi à casa de meus pais, e começou a falar da viagem. Aproveitei para perguntar-lhe: “tio, o que é que os americanos pensam de nós?” Minha tia, Aída, tomou a palavra e disse: “você já viu a capa do novo livro do Henfil, ‘Diário de um cucaracha’?” – Henfil, para quem não sabe, foi um célebre cartunista, que, perseguido pelos militares, passou uma temporada nos “Esteites”, e narrou suas aventuras nesse livro. “Sim”, respondi-lhe, e de fato a capa era inesquecível, pois trazia uma ilustração colorida, quase foto, de uma enorme barata (tradução do espanhol “cucaracha”) vermelha. “Pois é exatamente assim que eles nos veem, e se pudessem fariam assim conosco”, e imitou o gesto de uma pessoa que esmaga uma barata com a ponta dos pés.
            Nessa altura do relato, eu aproveitei para lembrá-los que, em junho, eles havia se recusado terminantemente a dançar a quadrilha, na Festa Junina, sob a alegação de que era “mico”. E eu então perguntei-lhes: “os americanos estarão, por ventura, preocupados em aprender a nossa língua, como nós aprendemos a deles, o nosso folclore, sobre nossas festas e em dançar a quadrilha, já que os jovens brasileiros não querem mais dançá-la?” “Não”, responderam eles, já meio desconfiados. Continuei: “vamos supor que um americano venha aqui, à nossa escola, no momento em que vocês estiverem festejando o Halloween, o que acontecerá? Ele se sentirá em casa ou vai dizer para si mesmo: ‘olha os cucarachas querendo virar gente!’ ?” “Olha os cucarachas querendo virar gente!” disseram alguns já com um fiozinho de voz. Seguiu-se um silêncio.

            Nunca mais eles tocaram nesse assunto nem comemoraram o Halloween.

(visitem o blogue historiatexto.blogspot.com.br)

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