O BAILE DOS CUCARACHAS
Prof Eduardo Simões
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fonte: http://deniseludwig.blogspot.com.br/
Tive uma
7ª série muito especial, em uma escola de Lorena, pois o núcleo da turma, uma
meia dúzia de garotas muito inteligentes e cheias de iniciativa, formavam uma
espécie de comunidade ‘emo’, que, por razões óbvias, ficaram muito animadas por
fazer, na escola, uma festa de Halloween, em outubro, e me pediram para ser o
patrono da festa, uma vez que esta havia sido uma das condições impostas pela
diretora. Não me agradou o convite-homenagem, feito no início de uma aula, e
insistentemente repetido, até que eu disse que toparia, mas que eles primeiro
teriam que ouvir e refletir numa história verdadeira acontecida comigo.
Lá pela
metade dos anos 80, um tio meu, Antero, recém-chegado dos Estados Unidos, foi à
casa de meus pais, e começou a falar da viagem. Aproveitei para perguntar-lhe: “tio,
o que é que os americanos pensam de nós?” Minha tia, Aída, tomou a palavra e
disse: “você já viu a capa do novo livro do Henfil, ‘Diário de um cucaracha’?”
– Henfil, para quem não sabe, foi um célebre cartunista, que, perseguido pelos
militares, passou uma temporada nos “Esteites”, e narrou suas aventuras nesse
livro. “Sim”, respondi-lhe, e de fato a capa era inesquecível, pois trazia uma
ilustração colorida, quase foto, de uma enorme barata (tradução do espanhol
“cucaracha”) vermelha. “Pois é exatamente assim que eles nos veem, e se
pudessem fariam assim conosco”, e imitou o gesto de uma pessoa que esmaga uma
barata com a ponta dos pés.
Nessa
altura do relato, eu aproveitei para lembrá-los que, em junho, eles havia se
recusado terminantemente a dançar a quadrilha, na Festa Junina, sob a alegação
de que era “mico”. E eu então perguntei-lhes: “os americanos estarão, por
ventura, preocupados em aprender a nossa língua, como nós aprendemos a deles, o
nosso folclore, sobre nossas festas e em dançar a quadrilha, já que os jovens
brasileiros não querem mais dançá-la?” “Não”, responderam eles, já meio
desconfiados. Continuei: “vamos supor que um americano venha aqui, à nossa
escola, no momento em que vocês estiverem festejando o Halloween, o que
acontecerá? Ele se sentirá em casa ou vai dizer para si mesmo: ‘olha os
cucarachas querendo virar gente!’ ?” “Olha os cucarachas querendo virar gente!”
disseram alguns já com um fiozinho de voz. Seguiu-se um silêncio.
Nunca
mais eles tocaram nesse assunto nem comemoraram o Halloween.
(visitem o blogue historiatexto.blogspot.com.br)

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