EDUCAÇÃO

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESCOLA PERIGOSA

Prof Eduardo Simões

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            O professor Lauro andava um tanto impaciente com os rumos da pedagogia nas universidades brasileiras, no final dos anos 1980. Certa vez, em uma palestra, ele disse, a respeito de estudantes de pedagogia que acabara de conhecer: “são umas guerrilheiras, mas como agora elas terão de lidar com a pré-escola, e as crianças da pré-escola não aguentam segurar uma metralhadora, elas vão ter que aprender sobre psicologia da criança!” Em vão. Quase trinta anos depois, nem as crianças ainda não aprenderam a manusear uma metralhadora nem as pedagogas, parece, ainda estão suficientemente interessadas por psicologia da criança.
            De fato, após o vendaval do Regime Militar, quando qualquer discussão política dentro da escola era considerada uma espécie de “subversão”, apesar de o país ser apresentado no exterior como uma democracia, nós caminhamos na direção justo oposta, no sentido de reduzir tudo dentro da escola a uma mera questão política, e a psicologia, e outros conhecimentos análogos, ficou sendo um assunto cada vez irrelevante na área – lembro-me que certa vez, conversando com o professor Gadiel Perucci, da Federal de Pernambuco, craque em história econômica numa abordagem marxista, sobre o que concluíra de uns estudos sobre Piaget e Lauro O Lima, aquele me disse: “é preciso tomar cuidado para não cair no pedagogismo”! Eu fiquei inédito, afinal eu estava estudando para ser um professor! Seria como se um médico fosse alertado para a possibilidade de se tornar muito “medicinal” ou “curativo”. Sem falar que ele, certamente, não se veria como suspeito de ter um discurso reducionista, ou de ser muito “economicista”.
            Partindo de uma posição reducionista, e até certo ponto egocêntrica, os revolucionários pós-Regime Militar, primaram por desfazer tudo o que havia na escola antiga, pelo simples fato de estar na escola antiga, sem atentar para a sua função educativa mais geral, quando não negavam, infantilmente, Lênin explica isso, a possibilidade das antigas gerações fazerem algo correto, o que nos remete para uma prática que muitos marxistas tanto abominam quanto repetem: o “maniqueísmo”, ou talvez ainda porque faltasse mesmo um projeto psico-pedagógico. Ninguém pensou nisso!
            Os espaços pequenos, fáceis de serem vigiados ou controlados pelos adultos, passaram a ser comparados aos espaços de uma prisão – lembro-me de um artigo saído na revista Ciência Hoje, da SBPC, onde a autora, que citava explicitamente a Piaget, associando-o ao projeto da Escola-Nova, temendo que todo o gigantesco conhecimento por ele levantado sobre a criança, acabasse induzindo um controle tal sobre o comportamento da criança, que esta ficaria como os personagens do livro 1984, de Orwell, permanentemente sob a vigilância do “Grande Irmão”, também citado pela autora. Solução: tratar a questão educacional do ponto de vista exclusivamente político, repudiando, de princípio todos os autores que não tivessem explicitamente vinculados à luta dos trabalhadores, blá, blá, blá.... A infância era apenas um detalhe, e a psicologia uma ciência “burguesa”!
            E, realmente, assim foi feito no Brasil que se seguiu à derrocada da Oligarquia Militar, só que ao invés da sonhada revolução veio a falência da extinta União Soviética, e o capitalismo mostrou a sua força tanto retórica como material na expectativa do fim da historia de Francis Fukuyama e na conversão da Rússia e da China ao que estes antes combatiam. O Brasil seguiu a onda, óbvio, e começaram a surgir grandes escolas no padrão americano, CIEPs, CIACs, CIDE, com muita tecnologia, vidros espelhados, com amplos espaços externos e corredores enormes, que facilitavam a circulação ou a o esvaziamento rápido da escola, muito apropriado para uma cultura onde massacrar os colegas de curso já virou um traço cultural e uma de suas expressões mais caras é “give me space” = “dê-me espaço”, “afaste-se”, ou simplesmente para copiar as novas unidades fabris, as indústrias da “Terceira onda” de Alvin Toffler, isso também muito apropriado a uma civilização viciada em acelerar, a ponto de tornar bolo prensado de carne na chapa sua refeição preferida.
            Mas entre nós é assim? Decerto que não, mas foi uma forma de a nossa antiga esquerda se adaptar ao novo corolário escolar-burguês, sem parecer antiquada, e, sem considerar que esses espaços foram criados para uma realidade diferente da nossa e para encher os olhos de adultos, não para receber crianças e jovens, embarcou no bonde errado da história dos outros. O controle, que para um adulto torna-se uma situação de opressão intolerável, para um imaturo, uma criança, é uma condição indispensável de segurança – a grande descoberta de Piaget e da psicologia do século XX, de que a criança não é um adulto em miniatura, como se imaginava desde a Antiguidade, foi jogada na lata do lixo, e os acidentes, inclusive fatais, começaram a se multiplicar.
            Os corredores apertados, que dificultavam o deslocamento, também aproximavam os alunos e os constrangiam a se socializarem, a se descobrirem como membros solidários de uma comunidade. Os grandes corredores e espaços, como se tudo na escola precisasse ser feito às carreiras e o desenvolvimento de um ser humano não durasse décadas até a maturidade, também trouxeram o isolamento e a solidão, assim como as formas mais dramáticas de se chamar a atenção, como os massacres em massa, uma vez que na estreita visão burguesa que impera na educação, a escola deve oferecer uma reprodução mais realista possível da linha de produção onde o que interessa é o resultado concreto, as notas em avaliações, e não se considera a afetividade nem a socialização, além de não ser algo que mereça constar do binômio custo-benefício com que a escola é medida.
            É a solidão e individualismo absoluto, levados ao paroxismo, resultando em reações igualmente paroxísticas.  Quando será que as pessoas vão começar a observar um fato curioso: os dois países com o maior número de ataques às escolas são, justamente, os campeões dessa mentalidade utilitária da escola: Estados Unidos e China. Dos 91 ataques com mortes mais sérios às escolas, acontecidos até 12 do corrente, 16 aconteceram na China, os EUA tinham o dobro, e entre os chineses, 15 ataques aconteceram depois do ano 2000, quando a China entrou em processo de desenvolvimento econômico acelerado (dados retirados da Wikipedia inglesa "List of rampage killers (school massacres)). Mera coincidência?
            Estamos fazendo muita coisa errada, e a toque de caixa, em matéria de educação, e talvez não seja tão fácil consertar, se um dia houver interesse para tanto. Podemos antecipar a maioridade legal ou os privilégios ou direitos dela decorrente para qualquer um, mas não podermos antecipar a maturidade emocional, sem antes entrarmos em um acordo com a natureza, assim como não dá para revogar a lei da gravidade nem ignorar as boas lições deixadas pelos antigos, sem pagar um preço, e então será melhor começarmos a ensinar, às crianças da pré-escola, o uso de metralhadoras.
           

Fonte: http://www.smar.com/
(visite o blogue historiatexto.blogspot.com.br)
Agradeço à minha esposa Margarida Guimarães

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