ESCOLA PERIGOSA
Prof Eduardo Simões
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O
professor Lauro andava um tanto impaciente com os rumos da pedagogia nas
universidades brasileiras, no final dos anos 1980. Certa vez, em uma palestra,
ele disse, a respeito de estudantes de pedagogia que acabara de conhecer: “são
umas guerrilheiras, mas como agora elas terão de lidar com a pré-escola, e as
crianças da pré-escola não aguentam segurar uma metralhadora, elas vão ter que aprender
sobre psicologia da criança!” Em vão. Quase trinta anos depois, nem as crianças
ainda não aprenderam a manusear uma metralhadora nem as pedagogas, parece,
ainda estão suficientemente interessadas por psicologia da criança.
De fato,
após o vendaval do Regime Militar, quando qualquer discussão política dentro da
escola era considerada uma espécie de “subversão”, apesar de o país ser
apresentado no exterior como uma democracia, nós caminhamos na direção justo
oposta, no sentido de reduzir tudo dentro da escola a uma mera questão
política, e a psicologia, e outros conhecimentos análogos, ficou sendo um
assunto cada vez irrelevante na área – lembro-me que certa vez, conversando com
o professor Gadiel Perucci, da Federal de Pernambuco, craque em história econômica
numa abordagem marxista, sobre o que concluíra de uns estudos sobre Piaget e
Lauro O Lima, aquele me disse: “é preciso tomar cuidado para não cair no
pedagogismo”! Eu fiquei inédito, afinal eu estava estudando para ser um
professor! Seria como se um médico fosse alertado para a possibilidade de se
tornar muito “medicinal” ou “curativo”. Sem falar que ele, certamente, não se
veria como suspeito de ter um discurso reducionista, ou de ser muito
“economicista”.
Partindo
de uma posição reducionista, e até certo ponto egocêntrica, os revolucionários
pós-Regime Militar, primaram por desfazer tudo o que havia na escola antiga,
pelo simples fato de estar na escola antiga, sem atentar para a sua função
educativa mais geral, quando não negavam, infantilmente, Lênin explica isso, a
possibilidade das antigas gerações fazerem algo correto, o que nos remete para
uma prática que muitos marxistas tanto abominam quanto repetem: o “maniqueísmo”,
ou talvez ainda porque faltasse mesmo um projeto psico-pedagógico. Ninguém
pensou nisso!
Os
espaços pequenos, fáceis de serem vigiados ou controlados pelos adultos,
passaram a ser comparados aos espaços de uma prisão – lembro-me de um artigo saído
na revista Ciência Hoje, da SBPC, onde a autora, que citava explicitamente a
Piaget, associando-o ao projeto da Escola-Nova, temendo que todo o gigantesco conhecimento
por ele levantado sobre a criança, acabasse induzindo um controle tal sobre o comportamento
da criança, que esta ficaria como os personagens do livro 1984, de Orwell,
permanentemente sob a vigilância do “Grande Irmão”, também citado pela autora. Solução:
tratar a questão educacional do ponto de vista exclusivamente político,
repudiando, de princípio todos os autores que não tivessem explicitamente
vinculados à luta dos trabalhadores, blá, blá, blá.... A infância era apenas um
detalhe, e a psicologia uma ciência “burguesa”!
E,
realmente, assim foi feito no Brasil que se seguiu à derrocada da Oligarquia
Militar, só que ao invés da sonhada revolução veio a falência da extinta União
Soviética, e o capitalismo mostrou a sua força tanto retórica como material na
expectativa do fim da historia de Francis Fukuyama e na conversão da Rússia e
da China ao que estes antes combatiam. O Brasil seguiu a onda, óbvio, e
começaram a surgir grandes escolas no padrão americano, CIEPs, CIACs, CIDE, com
muita tecnologia, vidros espelhados, com amplos espaços externos e corredores
enormes, que facilitavam a circulação ou a o esvaziamento rápido da escola,
muito apropriado para uma cultura onde massacrar os colegas de curso já virou um
traço cultural e uma de suas expressões mais caras é “give me space” = “dê-me
espaço”, “afaste-se”, ou simplesmente para copiar as novas unidades fabris, as
indústrias da “Terceira onda” de Alvin Toffler, isso também muito apropriado a
uma civilização viciada em acelerar, a ponto de tornar bolo prensado de carne na
chapa sua refeição preferida.
Mas
entre nós é assim? Decerto que não, mas foi uma forma de a nossa antiga
esquerda se adaptar ao novo corolário escolar-burguês, sem parecer antiquada, e,
sem considerar que esses espaços foram criados para uma realidade diferente da
nossa e para encher os olhos de adultos, não para receber crianças e jovens,
embarcou no bonde errado da história dos outros. O controle, que para um adulto
torna-se uma situação de opressão intolerável, para um imaturo, uma criança, é
uma condição indispensável de segurança – a grande descoberta de Piaget e da
psicologia do século XX, de que a criança não é um adulto em miniatura, como se
imaginava desde a Antiguidade, foi jogada na lata do lixo, e os acidentes,
inclusive fatais, começaram a se multiplicar.
Os corredores
apertados, que dificultavam o deslocamento, também aproximavam os alunos e os
constrangiam a se socializarem, a se descobrirem como membros solidários de uma
comunidade. Os grandes corredores e espaços, como se tudo na escola precisasse
ser feito às carreiras e o desenvolvimento de um ser humano não durasse décadas
até a maturidade, também trouxeram o isolamento e a solidão, assim como as
formas mais dramáticas de se chamar a atenção, como os massacres em massa, uma
vez que na estreita visão burguesa que impera na educação, a escola deve oferecer
uma reprodução mais realista possível da linha de produção onde o que interessa
é o resultado concreto, as notas em avaliações, e não se considera a
afetividade nem a socialização, além de não ser algo que mereça constar do binômio
custo-benefício com que a escola é medida.
É a solidão
e individualismo absoluto, levados ao paroxismo, resultando em reações
igualmente paroxísticas. Quando será que
as pessoas vão começar a observar um fato curioso: os dois países com o maior número
de ataques às escolas são, justamente, os campeões dessa mentalidade utilitária
da escola: Estados Unidos e China. Dos 91 ataques com mortes mais sérios às
escolas, acontecidos até 12 do corrente, 16 aconteceram na China, os EUA tinham
o dobro, e entre os chineses, 15 ataques aconteceram depois do ano 2000, quando
a China entrou em processo de desenvolvimento econômico acelerado (dados retirados da Wikipedia inglesa "List of rampage killers (school massacres)). Mera coincidência?
Estamos
fazendo muita coisa errada, e a toque de caixa, em matéria de educação, e
talvez não seja tão fácil consertar, se um dia houver interesse para tanto. Podemos
antecipar a maioridade legal ou os privilégios ou direitos dela decorrente para
qualquer um, mas não podermos antecipar a maturidade emocional, sem antes
entrarmos em um acordo com a natureza, assim como não dá para revogar a lei da
gravidade nem ignorar as boas lições deixadas pelos antigos, sem pagar um preço,
e então será melhor começarmos a ensinar, às crianças da pré-escola, o uso de
metralhadoras.
Fonte: http://www.smar.com/
(visite o blogue historiatexto.blogspot.com.br)
Agradeço à minha esposa Margarida Guimarães
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