EDUCAÇÃO

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O FIM DE UM MITO... E É UMA PENA!

Prof Eduardo Simões


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Fonte: http://educador.brasilescola.com/

            Sempre soube que a melhor forma de um professor fazer os alunos se interessarem por sua matéria seria ganhá-los afetivamente, criar laços de amizade e sadio companheirismo, sem chegar às intimidades ou “coleguismo” intolerável, como normalmente acontece com os professores mais jovens no início da carreira. Com base nessa crença, reforçada pela leitura de autores prestigiosos, como Paulo Freire e Lauro de Oliveira Lima, sempre primei por ter uma relação bastante horizontal com meus alunos, com vista ao aumento de produtividade e maior motivação deles para os conteúdos de minha matéria; mas algo não está dando certo!
            Na última exposição de trabalhos que participei na escola onde leciono, para “turbinar” a vitrine de história, expus várias revistas estrangeiras de história, com capas bem chamativas e nunca vistas antes por eles, não sem antes ter passado uma meia hora fazendo algo que eles adoram: competição de perguntas e respostas, que atraiu um enxame de alunos de várias turmas ao meu redor. Naquele momento eu fui o centro das atenções.
            Entretanto, quando as salas se abriram para os alunos apreciarem a exposição, ninguém parou diante das revistas nem lhes fez qualquer referência posteriormente, sequer teve curiosidade em folheá-las, como se elas já fizessem normalmente parte de seu cotidiano, o que não é verdade, ou eu fosse um professor especialmente detestado, o que também não é verdade – se eu o sou, então eles disfarçam muito bem, muito além do que normalmente se faz em escola pública, onde o mau professor é o primeiro a ser colocado contra a parede, mesmo quando não seja mau. Para mim ficou evidente o desinteresse, apesar de tudo, pela minha matéria.
            Daí surge a questão: se eu não sou particularmente detestado pelos alunos, se sou um professor que raramente falta e procura sempre chegar entusiasmado em sala de aula, dizendo “que legal, vamos trabalhar!” Por que esse desinteresse? É verdade que existe em curso no nosso estado uma política de desvalorização premeditada da história – reduziram muito a sua carga horária no Ensino Médio; misturaram História do Brasil com Geral, começando por esta; não é sempre que história é avaliada pelo SARESP; etc. – que deve causar, como sequela, esse desinteresse, sem falar de uma abordagem excessivamente ideologizada, voltada para a descrição de grandes estruturas, tão interessante quanto a leitura de um balancete de empresa. Na minha juventude a história era a segunda opção da maioria dos vestibulandos. Quantas vezes não ouvi “só não faço história porque não dá dinheiro”. Há um desinteresse visceral dos alunos pela matéria, que já está se tornando um traço da nossa cultura (mas para onde nós iremos sem história?), capaz de resistir, inclusive, à amizade ao professor.
            Moral da história, sem trocadilho, vivemos na educação a lei da menos valia, da seguinte maneira: se o professor for mau profissional ou hostil aos alunos ele pode esperar com certeza resultados ruins em sua matéria, mas se ele for apreciado pelos alunos não deverá, como consequência, esperar bons resultados. O sistema perde, cada vez mais, a sua racionalidade, ou são os imaturos que, como era de se esperar, não sabem fazer bom uso do poder que lhes é concedido pelas “autoridades”, e a aprovação automática, junto com outras medidas paternalistas, conduziram-nos à extrema banalização de tudo o que acontece na escola.
            É só continuar fingindo que está tudo bem.
           

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

O BAILE DOS CUCARACHAS

Prof Eduardo Simões


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fonte: http://deniseludwig.blogspot.com.br/

            Tive uma 7ª série muito especial, em uma escola de Lorena, pois o núcleo da turma, uma meia dúzia de garotas muito inteligentes e cheias de iniciativa, formavam uma espécie de comunidade ‘emo’, que, por razões óbvias, ficaram muito animadas por fazer, na escola, uma festa de Halloween, em outubro, e me pediram para ser o patrono da festa, uma vez que esta havia sido uma das condições impostas pela diretora. Não me agradou o convite-homenagem, feito no início de uma aula, e insistentemente repetido, até que eu disse que toparia, mas que eles primeiro teriam que ouvir e refletir numa história verdadeira acontecida comigo.
            Lá pela metade dos anos 80, um tio meu, Antero, recém-chegado dos Estados Unidos, foi à casa de meus pais, e começou a falar da viagem. Aproveitei para perguntar-lhe: “tio, o que é que os americanos pensam de nós?” Minha tia, Aída, tomou a palavra e disse: “você já viu a capa do novo livro do Henfil, ‘Diário de um cucaracha’?” – Henfil, para quem não sabe, foi um célebre cartunista, que, perseguido pelos militares, passou uma temporada nos “Esteites”, e narrou suas aventuras nesse livro. “Sim”, respondi-lhe, e de fato a capa era inesquecível, pois trazia uma ilustração colorida, quase foto, de uma enorme barata (tradução do espanhol “cucaracha”) vermelha. “Pois é exatamente assim que eles nos veem, e se pudessem fariam assim conosco”, e imitou o gesto de uma pessoa que esmaga uma barata com a ponta dos pés.
            Nessa altura do relato, eu aproveitei para lembrá-los que, em junho, eles havia se recusado terminantemente a dançar a quadrilha, na Festa Junina, sob a alegação de que era “mico”. E eu então perguntei-lhes: “os americanos estarão, por ventura, preocupados em aprender a nossa língua, como nós aprendemos a deles, o nosso folclore, sobre nossas festas e em dançar a quadrilha, já que os jovens brasileiros não querem mais dançá-la?” “Não”, responderam eles, já meio desconfiados. Continuei: “vamos supor que um americano venha aqui, à nossa escola, no momento em que vocês estiverem festejando o Halloween, o que acontecerá? Ele se sentirá em casa ou vai dizer para si mesmo: ‘olha os cucarachas querendo virar gente!’ ?” “Olha os cucarachas querendo virar gente!” disseram alguns já com um fiozinho de voz. Seguiu-se um silêncio.

            Nunca mais eles tocaram nesse assunto nem comemoraram o Halloween.

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LUCIANO HUCK OU A VERGONHA DE SER BRASILEIRO

Prof Eduardo Simões


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http://www.taringa.net/
            Faço a chamada no 1º Ano do Ensino Médio. “Caroline!”. Uma aluna, uma graciosa mulata, vem até mim e pergunta: “como está escrito?” Estranhei, mas soletrei para ela. “Está errado, é com dois ípsilones”. Conferi de novo o nome é lá estava: Caroline. Fui à secretaria da escola e pesquisei na sua ficha de matrícula e nas fotocópias de documentos. “Nos seus documentos está escrito com ‘i’ e ‘e’!” Ela insiste: “mas eu quero que seja escrito com dois ípsilones”. Escaldado pela enorme quantidade de alunos com nomes estropiados, na tentativa de pais semianalfabetos em reproduzir termos da cultura inglesa – já tive até uma “Kerollen” – tentei lhe convencer já estava perfeitamente adequado à grafia inglesa original, até lhe ensinei a pronúncia: “kerolain”, mas não adiantou; a cultura inglesa era muito pouco “inglesa”, para ela. Logo ela, que só pelas características raciais, poderia sofrer preconceito se fosse morar no principal atrativo da cultura inglesa: os EUA. Pelo menos, ela não mais correria o risco de ser esterilizada, sem o saber ou sofrer linchamento público, como amargaram as pessoas de pele escura algumas décadas antes. Coisa que ela, e os outros, nem imaginam.
            Isso me preocupa, pois historicamente era apenas a elite econômica que costumava mostrar ojeriza pelo povo e a cultura da terra, tendo sido necessário um monumento literário do porte de um “Sertões”, de Euclides da Cunha, de 1902, para mostrar às nossas elites da época, que havia um Brasil para além de seus muros e das vitrines de Paris, uma elite deveras ingrata, pois devia os imensos privilégios e prestígio ao povo e ao país que tanto desprezava, e que não os experimentaria em nenhum outro local do mundo “civilizado”, tanto a seu gosto.
            Bem, já que não dá para se transferir para Europa ou Estados Unidos, carregando os privilégios junto, porque não tentar trazer o mundo “civilizado” para cá, assegurando, a manutenção do privilégio e da fama. Semana passada, um quadro do progrma de Luciano Huck, chamado “Um por todos. Todos por um”, frase retirada do romance “Os três mosqueteiros”, do francês Alexandre Dumas, penso, chamou-me a atenção.
            Tudo começou com a descoberta de um projeto extremamente meritório, de um agente penitenciário de Aquidauana, MS, uma cidade cujo nome está ligado a um dos mais imponentes e esquecidos feitos militares da história de nosso país: a Retirada da Laguna, em 1867, quando quase dois mil homens e mulheres deram a sua vida ou o seu sangue, para que aí se continuasse falando português e valendo as nossas leis. Que prevalecesse a nossa cultura.
            Descoberto por Huck, o emotivo e bem brasileiro agente, instrutor de basquete nas horas vagas, foi envolvido, junto conosco, em uma aventura de mágica, que contou com a presença de astros genuinamente nacionais como Oscar Schmidt e Hortência Marcari, sendo o tal agente, inclusive, levado pela produção do programa para assistir um jogo do Cleveland Cavaliers, onde conheceu Anderson Varejão, e a frase slogan do time: “All for one. One for all!”. O título, em inglês, do quadro de Luciano Huck!
            Tudo bem, nada de mais, como nada de constrangedor havia no presente que a produção deu ao agente ao turbinar, com uma bela reforma, o espaço a ser usado pelos alunos do agente, em geral filhos de presidiários e gente pobre, não fosse o nome escolhido, pela produção, para o time recém-criado: “AQUIDAUANA ALLIGATORS”, exatamente como é o costume nos Estados Unidos e Canadá, inclusive com a inversão, na frase, entre possuidor e a coisa possuída, como ocorre na língua inglesa.
            Aligátor, amigo, é um animal que só existe nos Estados Unidos, no Brasil, se é que é para por um nome de animal, conforme o costume americano, o que existe são jacarés. Qual a razão dessa cópia tão grosseira de um costume americano no interior do Brasil, no centro da América do Sul, tão abandonada e esquecida pelos “brothers”? Por que razão impor, de foram tão agressiva, ao povo pobre de Aquidauana, vergonha por sua própria cultura, ou será que todos vão conseguir olhar para aquele escudo do time, onde está escrito “alligators”, e ler sem dificuldade “aligueirô”, como Luciano Huck fez questão de ressaltar e até gritar, no final do programa, como que para ninguém esquecer a pronúncia correta do inglês dos EUA? Por que razão é importante que as pessoas se sintam analfabetas, ou inferiores, toda vez que olharem para o escudo do seu time de coração e não entenderem nada, até ficarem com vergonha por viverem em um lar ou em uma cidade onde só se fala português? O Departamento de Estado dos EUA, alguma empresa de lá, pelo menos, financiou alguma coisa? Eles vieram de lá trabalhar no projeto? Se isso aconteceu, por que foi omitido?
             Isso não é brincadeira, estamos ignorando coisa séria e está na hora de termos mais cuidado e zelo nossa cultura. Certa vez eu estava dando aula e pronunciei displicentemente “eipou”, a propósito de “apple”, afinal eu não faço nenhum esforço em ser castiço na pronuncia do meu inglês no meu país – eu sou brasileiro e não americano ou inglês – quando um aluno, semianalfabeto em português e analfabeto em história do Brasil, por resistir à aprendizagem, me interrompeu para corrigir: “é épou”. Ou seja, enquanto nas universidades doutores e mestres recomendam não corrigir os erros de português dos alunos, a pretexto de preservar a autoestima, constrangimento de classe ou sei lá que outra mitologia, os brasileiros, alguns semianalfabetos, estão se cobrando nas ruas a pronuncia correta do inglês, e o programa de Luciano Huck, infelizmente, deu mais força a esse desatino.
            E quem fica na corda bamba numa realidade como esta? A principal fonte de cultura luso-brasileira: a escola com os seus professores, vistos cada vez mais como antifuncionais, porque tentam passar conhecimento e valores que programas como os de Luciano Hulk afirmam gratuitamente ser inadequados ou ultrapassados, na melhor das hipóteses, ou talvez ele, como a maioria, nem saiba o que está fazendo, afinal tem um quadro felicíssimo chamado “soletrando”, ainda que baseado em antiquíssimas competições americanas de soletração. Mas vale, é uma boa iniciativa.

            Como a escola e professores podem resistir a pressões dessa envergadura e garantir uma boa qualidade e quantidade de aprendizagem? Enquanto isso, “especialistas”, mobilizados pelas principais revistas do país, clamam ter encontrado a solução à descaracterização e desvalorização da cultura e o seu prolongamento necessário, a desvalorização do conhecimento adquirido nessa cultura: a culpa é dos professores e a solução é acabar com a estabilidade no emprego e quaisquer outras vantagens para a carreira, afinal ele é um profissional como outro qualquer, da mesma forma que as crianças, os seres humanos, são um bem como outro qualquer? Afinal não é nisso que se acredita nos Estados Unidos?

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sábado, 22 de novembro de 2014

PROFESSOR BOM É AQUELE QUE PODE SER DEMITIDO

Prof Eduardo Simões


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Fonte - http://fotografia.folha.uol.com.br/

            O número 858, de novembro, da revista ÉPOCA, trouxe uma matéria esperançosa para os profissionais da educação com o título “DEPENDE DELE”, esclarecendo na subchamada: “...um fator [para o progresso do aluno] importa muito mais que os outros: o professor”, de autoria da senhora Camila Guimarães, mas que, ao invés de revelar e explorar os benefícios e as características evidentes de um “bom” professor, inclusive nos esclarecendo melhor o que seria essa categoria ou conceito tão subjetivo, abriu a matéria com o relato um processo ocorrendo no estado da Califórnia (EUA), onde um grupo de alunos, se sentindo lesado pelo mal desempenho de um ou vários professores, resolveu pedir uma indenização – a autora do artigo, acrescenta que o juiz considerou que, “o Estado da Califórnia fere a Constituição [dos EUA], ao manter a estabilidade de emprego e outras leis de proteção aos professores, porque isso dificulta a demissão de professores ruins” – e nessa batida seguiu até o fim da matéria.
            Daí já surge a primeira questão que desmente cabalmente a articulista e o próprio juiz da causa: o estado da Califórnia tem apresentado, “apesar” de seus professores estáveis, uma melhora  significativa no ranking da educação americana, nos últimos cinco anos, conforme se pode ler no site da revista Veja, http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/demitir-professores-ineficientes-e-uma-decisao-correta, uma revista campeã na luta pela demissão de professores, sem falar dos dados do Departamento de Educação da Califórnia encontrados em http://www.cde.ca.gov/ta/ac/ap/highestapiscore13.asp.
            É deveras notável como, em nosso país, toda vez que alguém fala em promover ou valorizar o professor ou a educação começa sempre a se queixar da impossibilidade de demiti-lo, nas escolas públicas, que o transforma no único profissional cujo valor não é medido pela importância de sua função social nem por sua qualificação intrínseca, mas antes por sua provisoriedade; quanto mais, melhor. Aliás, nessas matérias raramente se busca a opinião direta dos professores sobre esses assuntos, ficando esta restrita a uma única e opaca participação de algum representante do sindicato, como aconteceu na matéria de ÈPOCA, mostrando que o objetivo da matéria, esta e outras, não é tanto aprofundar uma questão, da mais alta relevância, creio, mas antes propagandear uma posição previamente assumida, seja pelo autor do texto seja pelo veiculo de sua publicação, ou ambos.
            Camila Guimarães chega a citar Amanda Ripley como “autoridade” em assuntos educacionais, por meio desta pérola: “[Polônia, Finlândia, Coreia] São diferentes países com diferentes culturas e tamanhos, com poucas coisas em comum”. Mas aí a situação começa a degringolar para o lado da seriedade da matéria: Primeiro, Amanda Ripley não é nenhuma especialista em educação ou professora de sala de aula, que possa abalizar com a autoridade de uma vivência, pelo menos, aquilo que diz, pois ela é jornalista. Segundo, a avaliação que ela faz sobre os três países citados é absolutamente pueril e de uma superficialidade estonteante, como se nessas questões o que valesse fosse apenas a quantidade e não a qualidade, sem falar que é preciso forçar bastante para até para ver as diferenças menos fundamentais.
            Quanto ao fato dela ser jornalista não me prolongarei mais, pois todos sabem o quanto essa categoria profissional tanto mais é ciosa de seus saberes, quanto mais é ousada em avaliar saberes alheios e portar-se como especialistas em outras áreas, e como eu não sou especialista em jornalismo ou comunicação... Mas se analisarmos melhor no que esses países se assemelham veremos algumas coisas notáveis: Em termos de área Polônia e Finlândia são iguais e três vezes maiores que a Coreia; em termos de população Polônia e Coreia não diferem tanto, mas se distanciam muito da Finlândia – nada que se compare ao Brasil, 27 vezes maior que o maior deles: a Polônia. Avancemos. O IDH de um é 35, do outro 24, e do outro 15; não é tanta diferença assim – já o IDH do Brasil é 79! E quanto à desigualdade interna.
            E a desigualdade econômico-social interna? Segundo o coeficiente de Gini de 2009,  Polônia e Coreia estão no mesmo patamar, enquanto a Finlândia está um patamar acima – o Brasil está 5 patamares abaixo dos primeiros! Se o índice usado for o P90/P10, a conclusão é a seguinte: “No Brasil a concentração de renda é tão intensa que o índice P90/P10 está em 68 (2001). Ou seja, para cada Dólar que os 10% mais pobres recebem, os 10% mais ricos recebem 68. O Brasil ganha apenas da Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Segundo dados do Human Development Report (HDR) – Organização das Nações Unidas (ONU), de 2004, o Brasil apresenta historicamente uma desigualdade extrema, com índice de Gini próximo a 0,6. Este valor indica uma desigualdade brutal e rara no resto do mundo, já que poucos países apresentam índice de Gini superior a 0,5. Dos 127 países presentes no relatório, o Brasil apresenta o 8º pior índice de desigualdade do mundo, superando todos os países da América do Sul e ficando apenas à frente de sete países africanos” http://www.if.org.br/artigo.php?codArtigo=105&PHPSESSID=acb5440382518545d00877951637980b. 
            E quanto à homogeneidade étnica? Na Coreia, 98% da população são coreanos étnicos; na Polônia, 98,7% são polacos étnicos, e na Finlândia 91% são fineses – compare-se isso à salada étnica brasileira (47% brancos, 43% pardos, 7% negros, 2% de asiáticos, 1% índios ou sem raça, cada grupo com uma visão de cultura ou nação diferente, entremeados por levas de imigrantes da mais variada procedência). Os finlandeses estabilizaram a base de sua cultura, a língua, entre 3.500 e 1.000 antes de Cristo; os poloneses remontam suas raízes a assentamentos datados de quase 800 antes de Cristo e os Coreanos fazem a sua cultura remontar a 2333 antes de Cristo, embora os chineses só os citem lá por volta do 7º século... antes de Cristo! Compara-se isso aos 500 anos do Brasil! Ou seja: quem não é especializado em comentar educação já percebeu que as poucas coisas que aproximam esses países, e nos afastam deles, são justamente as que interessam, e que fazem toda a diferença quando se trata tanto de conseguir as primeiras colocações em exames internacionais assim como de aplicar aqui coisas que deram certo lá!
            Mas mesmo que queiramos seguir o padrão intermediário americano, as diferenças são tão gritantes que não dá para não falar nelas. Comecemos pela percepção da natureza do processo educacional. Nos EUA há indicativos fortes que nos informam estar bem claro para a sociedade que a escola e os professores realmente são fundamentais, e que a relação entre eles envolve muito mais que apenas transmissão de informações, e que o professor tem algo a dizer sobre aquilo que faz à sociedade, ao contrário do que ocorre aqui, quando o professor é ignorado nas reformas e manipulado por secretárias de educação vinculadas, em primeiro lugar, a interesses políticos, nem sempre colocados com clareza para a população – é preciso falar mais disso?   Não se trata, como imaginam as mentes mais apressadas, de reles um transmissor de conhecimento passando informações para um receptor; de um professor, que vai dar turbinar o receptor do aluno, para que ele possa digerir informações mais complexas, como acontece numa linha de produção fabril. Existe entre o aluno e o professor tal gama de possibilidades de acertos e equívocos, muito acima da vã sabedoria dos “especialistas”, que jamais puseram os pés, senão em visita, dentro de uma sala de aula da educação fundamental. Vejamos outros detalhes.
            a) existe nos EUA uma antiga e poderosa classe média que sempre deu mostras de entender e valorizar o papel da escola, inclusive a pública, a ponto de lotar ginásios para discutir questões relacionadas á administração da escola e cuidados com os alunos, etc. Onde isso acontece aqui? Uma pesquisa recente no site da revista Veja acima citada, deu que o levantamento de uma ONG constatou que apenas 12 % dos pais de alunos de escola publicas e privadas se importam para valer com o que acontece na escola de seus filhos, e qualquer professor de escola pública pode testemunhar do acerto dessa pesquisa. Agora, se a classe média brasileira, que só frequenta a escola pública, em geral, quando aperta uma crise econômica, onde, também no geral, se destaca mais na luta por privilégios para o seu filho que pela qualidade da escola como um todo, e foge dela logo que a crise é superada, como evitar que políticos interesseiros e mal intencionados, ainda que “raros” em nosso país, intervenham no sentido de demitir bons professores para empregar os seus apaniguados?
            É comum, e antigo, nos EUA, acontecimentos escolares empolgarem a comunidade e até a nação, fazendo-os discutir intensamente sobre temas relacionados à educação, como aconteceu, por exemplo, no célebre julgamento do Macaco de Scopes, quando um professor John Scopes, tentou ensinar a teoria da evolução numa escola do Tennesse, em 1925! Desse julgamento participou um dos políticos mais influentes do país e candidato à presidência! Quando isso já aconteceu aqui? Inclusive neste momento estamos discutindo uma questão educacional lançada a partir de lá!
            b) Quem não educa seus filhos e não os manda regularmente à escola, nos EUA, pode perder, para valer, e em pouco tempo, a guarda deles, tal é o valor que se dá a essa instituição e à obrigação que as famílias têm de educar seus filhos. Quem der aulas numa escola pública brasileira, salvo raras exceções, sabe o quanto ainda estamos longe dessa realidade.
            c) A questão da disciplina dentro das escolas americanas, em geral, é seríssima, um desacato ao professor pode gerar graves problemas para o menino ou seus pais, dependendo da idade do aluno e da natureza do crime. Garotos que cometem assassinato podem pegar até prisão perpétua, e quase não se houve falar de estudantes fazendo distribuição de drogas dentro da escola. É preciso dizer o que acontece neste país acerca disso? É fácil, para quem está fora de sala de aula, dizer que se trata apenas de repressão pela repressão, mas a verdade é que a sociedade americana age assim por dois motivos: sabe que está lidando com um imaturo, que muitas vezes tem a necessidade de sentir o braço pesado da lei, antes para se convencer que estas devem ser respeitadas, faz parte da aprendizagem, ao mesmo tempo em que eles, os americanos, têm consciência que o professor é a primeira imagem que os jovens vão ter do Estado, e se eles não respeitarem aquele, fatalmente não respeitarão a este. Nós, que ignoramos essa realidade tão básica estamos lutando palmo a palmo, sangrentamente, para não perdemos o controle da segunda maior cidade do país para o crime organizado, enquanto experienciamos temporadas de matança generalizada de policiais no Estado mais poderoso. Isso por lá não existe, e se aprende na escola.
            d) o salário médio do professor americano é 55 mil dólares/ano (137 mil reais, 10 mil por mês, se considerarmos nossos 13 salários anuais, sem contar que as coisas nos EUA são muito mais baratas que aqui, de tal sorte que o seu poder de compra se aproximaria de uns 150 mil reais). O estado mais rico, nova York, paga 73 mil dólares/ano (185 mil reais) e o mais pobre, Dakota do Sul, 38 mil dólares/ ano (95 mil reais, cerca de 7.300 reais por mês). Confira http://www.cde.ca.gov/fg/fr/sa/cefavgsalaries.asp. É preciso acrescentar algo?
            Prestigiado pela sociedade, protegido pelas autoridades, bem pago, até para os padrões americanos, esse professor decerto precisa apresentar resultados e justificar o imenso investimento feito pela sociedade na sua função; tal é o que acontece no Brasil? A resposta é um sonoro “NÃO”, pois o professor ganha mal até para padrão salarial do Brasil, sendo necessário que se votem leis, tipo piso salarial, para evitar que em algumas unidades da federação ou microrregiões os professores sejam extintos, sem falar de outros problemas inimagináveis por seus colegas americanos, como ser brutalmente agredido dentro da escola, física e moralmente, e no dia seguinte ver o seu agressor em sala, como se nada tivesse acontecido. O poder desmotivador de uma política de tão desmoralizante não deve ser desprezado.
            Nesses últimos anos, é forçoso reconhecer, as nossas autoridades foram muito bem sucedidas em recriar uma nova visão de escola, quiçá mais “moderna”, na sociedade brasileira. O professor passou a ser visto como uma babá de luxo e as escolas simples “depósitos de crianças”! Assim sendo, não é de estranhar que esteja se tornando comum a invasão da escola por pais furiosos, seja por que motivo for, para agredir fisicamente a professores, e até diretores, afinal em quem se vai bater nesse país, agora que as domésticas conseguiram equiparação com as outras categorias profissionais e começam a se libertar do elo escravista que as mantinham reféns de todo tipo de violência? Se esse é um quadro real da nossa escola, e isso é, aparentemente, o que a sociedade aceita como razoável, ao retirarmos a estabilidade estaremos retirando um dos poucos atrativos, em alguns casos o único, que a profissão ainda oferece, em um país onde, segundo estatísticas, faltam algo em torno de 250 mil professores, gente apenas para dar aulas, sem qualquer consideração com a qualidade de seu serviço. É uma emergência!
            A senhora Camila fala de “bons professores” como se o termo “bom” não fosse um adjetivo sujeito a toda sorte de interpretação subjetiva, como ocorre a todos os adjetivos. Existem até cartilhas e reportagens, falando desse ou daquele modelo de professor, altamente idealizado, mas quem esteve em sala de aula sabe que isso não existe, e que o professor que agrada aos bons alunos, não agradará aos maus, e vice-versa, inclusive alguns há que podem até agradar aos alunos no conjunto, mas não agradam em nada a diretores e burocratas. Eu conheço essa realidade muito de perto. Quem vai definir a sua permanência no sistema? Para não falar de uma serie de outros fatores que “invadem” o dia a dia da escola, inclusive o crime organizado, com a distribuição escancarada de drogas. E se os alunos ligados ao crime organizado resolverem fazer uma campanha, um abaixo assinado, contra um professor que ouse enfrenta-los, pensando no bem de seus alunos, quem seria louco de não assinar?
            Uma pessoa é boa ou ruim em função dos valores cultuados em uma sociedade, em especial aqueles mais elevados, posto em relevo pela função que ela exerce no meio social. Qual é o valor mais cultuado e elevado na nossa sociedade além do dinheiro, com a miríade de escândalos por ele produzidos, capazes de nos tomar quase metade dos nossos mais importantes telejornais, por meses a fio, inviabilizando as tentativas que fazemos, diariamente,  junto com nossos alunos, para que eles creiam que ainda vale a pena ser honesto e respeitar as leis? Esse mesmo valor que hoje brada, pela pena de “ilustres” personagens, que a desestabilidade do professor é o melhor caminho para curar os males da nossa educação, como se este, pelo seu conhecimento e pela sua obrigação de julgar e avaliar crianças, de preparar o futuro da nação, não merecesse como, os juízes, as mesmas garantias de estabilidade ou a inamovibilidade, numa sociedade onde os valores não são estáveis.
            Acenar a essa altura com a quebra da estabilidade dos professores, como a grande panaceia, em um sistema que desaba de podre e de descrédito, sem abarcar ao mesmo tempo todos os outros inúmeros fatores que comprometem muito mais gravemente a qualidade de nossa escola, é jogar lenha ainda mais na crise, apenas para seguir um modismo ou soluções alienígenas, e confirmar a sabedoria dos antigos que afirmavam que “Deus começa por tirar o juízo daqueles que vão se perder”.

           
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESCOLA PERIGOSA

Prof Eduardo Simões

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            O professor Lauro andava um tanto impaciente com os rumos da pedagogia nas universidades brasileiras, no final dos anos 1980. Certa vez, em uma palestra, ele disse, a respeito de estudantes de pedagogia que acabara de conhecer: “são umas guerrilheiras, mas como agora elas terão de lidar com a pré-escola, e as crianças da pré-escola não aguentam segurar uma metralhadora, elas vão ter que aprender sobre psicologia da criança!” Em vão. Quase trinta anos depois, nem as crianças ainda não aprenderam a manusear uma metralhadora nem as pedagogas, parece, ainda estão suficientemente interessadas por psicologia da criança.
            De fato, após o vendaval do Regime Militar, quando qualquer discussão política dentro da escola era considerada uma espécie de “subversão”, apesar de o país ser apresentado no exterior como uma democracia, nós caminhamos na direção justo oposta, no sentido de reduzir tudo dentro da escola a uma mera questão política, e a psicologia, e outros conhecimentos análogos, ficou sendo um assunto cada vez irrelevante na área – lembro-me que certa vez, conversando com o professor Gadiel Perucci, da Federal de Pernambuco, craque em história econômica numa abordagem marxista, sobre o que concluíra de uns estudos sobre Piaget e Lauro O Lima, aquele me disse: “é preciso tomar cuidado para não cair no pedagogismo”! Eu fiquei inédito, afinal eu estava estudando para ser um professor! Seria como se um médico fosse alertado para a possibilidade de se tornar muito “medicinal” ou “curativo”. Sem falar que ele, certamente, não se veria como suspeito de ter um discurso reducionista, ou de ser muito “economicista”.
            Partindo de uma posição reducionista, e até certo ponto egocêntrica, os revolucionários pós-Regime Militar, primaram por desfazer tudo o que havia na escola antiga, pelo simples fato de estar na escola antiga, sem atentar para a sua função educativa mais geral, quando não negavam, infantilmente, Lênin explica isso, a possibilidade das antigas gerações fazerem algo correto, o que nos remete para uma prática que muitos marxistas tanto abominam quanto repetem: o “maniqueísmo”, ou talvez ainda porque faltasse mesmo um projeto psico-pedagógico. Ninguém pensou nisso!
            Os espaços pequenos, fáceis de serem vigiados ou controlados pelos adultos, passaram a ser comparados aos espaços de uma prisão – lembro-me de um artigo saído na revista Ciência Hoje, da SBPC, onde a autora, que citava explicitamente a Piaget, associando-o ao projeto da Escola-Nova, temendo que todo o gigantesco conhecimento por ele levantado sobre a criança, acabasse induzindo um controle tal sobre o comportamento da criança, que esta ficaria como os personagens do livro 1984, de Orwell, permanentemente sob a vigilância do “Grande Irmão”, também citado pela autora. Solução: tratar a questão educacional do ponto de vista exclusivamente político, repudiando, de princípio todos os autores que não tivessem explicitamente vinculados à luta dos trabalhadores, blá, blá, blá.... A infância era apenas um detalhe, e a psicologia uma ciência “burguesa”!
            E, realmente, assim foi feito no Brasil que se seguiu à derrocada da Oligarquia Militar, só que ao invés da sonhada revolução veio a falência da extinta União Soviética, e o capitalismo mostrou a sua força tanto retórica como material na expectativa do fim da historia de Francis Fukuyama e na conversão da Rússia e da China ao que estes antes combatiam. O Brasil seguiu a onda, óbvio, e começaram a surgir grandes escolas no padrão americano, CIEPs, CIACs, CIDE, com muita tecnologia, vidros espelhados, com amplos espaços externos e corredores enormes, que facilitavam a circulação ou a o esvaziamento rápido da escola, muito apropriado para uma cultura onde massacrar os colegas de curso já virou um traço cultural e uma de suas expressões mais caras é “give me space” = “dê-me espaço”, “afaste-se”, ou simplesmente para copiar as novas unidades fabris, as indústrias da “Terceira onda” de Alvin Toffler, isso também muito apropriado a uma civilização viciada em acelerar, a ponto de tornar bolo prensado de carne na chapa sua refeição preferida.
            Mas entre nós é assim? Decerto que não, mas foi uma forma de a nossa antiga esquerda se adaptar ao novo corolário escolar-burguês, sem parecer antiquada, e, sem considerar que esses espaços foram criados para uma realidade diferente da nossa e para encher os olhos de adultos, não para receber crianças e jovens, embarcou no bonde errado da história dos outros. O controle, que para um adulto torna-se uma situação de opressão intolerável, para um imaturo, uma criança, é uma condição indispensável de segurança – a grande descoberta de Piaget e da psicologia do século XX, de que a criança não é um adulto em miniatura, como se imaginava desde a Antiguidade, foi jogada na lata do lixo, e os acidentes, inclusive fatais, começaram a se multiplicar.
            Os corredores apertados, que dificultavam o deslocamento, também aproximavam os alunos e os constrangiam a se socializarem, a se descobrirem como membros solidários de uma comunidade. Os grandes corredores e espaços, como se tudo na escola precisasse ser feito às carreiras e o desenvolvimento de um ser humano não durasse décadas até a maturidade, também trouxeram o isolamento e a solidão, assim como as formas mais dramáticas de se chamar a atenção, como os massacres em massa, uma vez que na estreita visão burguesa que impera na educação, a escola deve oferecer uma reprodução mais realista possível da linha de produção onde o que interessa é o resultado concreto, as notas em avaliações, e não se considera a afetividade nem a socialização, além de não ser algo que mereça constar do binômio custo-benefício com que a escola é medida.
            É a solidão e individualismo absoluto, levados ao paroxismo, resultando em reações igualmente paroxísticas.  Quando será que as pessoas vão começar a observar um fato curioso: os dois países com o maior número de ataques às escolas são, justamente, os campeões dessa mentalidade utilitária da escola: Estados Unidos e China. Dos 91 ataques com mortes mais sérios às escolas, acontecidos até 12 do corrente, 16 aconteceram na China, os EUA tinham o dobro, e entre os chineses, 15 ataques aconteceram depois do ano 2000, quando a China entrou em processo de desenvolvimento econômico acelerado (dados retirados da Wikipedia inglesa "List of rampage killers (school massacres)). Mera coincidência?
            Estamos fazendo muita coisa errada, e a toque de caixa, em matéria de educação, e talvez não seja tão fácil consertar, se um dia houver interesse para tanto. Podemos antecipar a maioridade legal ou os privilégios ou direitos dela decorrente para qualquer um, mas não podermos antecipar a maturidade emocional, sem antes entrarmos em um acordo com a natureza, assim como não dá para revogar a lei da gravidade nem ignorar as boas lições deixadas pelos antigos, sem pagar um preço, e então será melhor começarmos a ensinar, às crianças da pré-escola, o uso de metralhadoras.
           

Fonte: http://www.smar.com/
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Agradeço à minha esposa Margarida Guimarães
MOMENTO PIAGETIANO

Prof Eduardo Simões


http://awebic.com/wordpress/wp-content/uploads/2014/07/awebic-olhares-expressivos-20.jpg?863a37
            Incrível flagrante tomado por um fotógrafo da revista americana Life, já extinta, no momento em que um dragão é morto, em um espetáculo de marionetes, em 1963, em algum lugar da França. Pela expressão que elas fazem, todo o seu corpo se mobiliza, podemos adiantar que elas estão em uma fase do desenvolvimento que Piaget chama de pré-operatório-intuitivo, entre o simbólico e o operatório concreto, onde a criança começa a fazer uma espécie de “passagem” da fantasia para o mundo real – em alguns momentos ela desfaz da fantasia, “coisa de criancinha”, mas noutros ela se entrega toda àquela.
            As crianças maiores, intuitivas, vistas atrás e à direita da foto, vibram apaixonadamente de alegria com a morte do dragão “malvado”, enquanto a menor, de toca na cabeça, à esquerda, faz uma cara de espanto impagável, surpreendida pelo inesperado da cena. A criancinha menor, mais à esquerda, centrou no fotógrafo e perdeu toda a cena, mas ela não se lamentará por isso, muito pequena, para ela essa perda não fará a menor diferença, nem alterará seus planos para esse dia.
            É interessante notar a diferença dessas reações para as de um adulto maduro. Este, em geral, assume o sentimento dos personagens, após um longo preparo – as voltas do roteiro de uma peça, um filme, etc. – após o qual o adulto poderá verter algumas lágrimas, tomar um breve susto, do qual logo se recomporá, etc., enquanto a criança simbólica, se conseguir entender a mensagem da peça, se colocará no lugar do personagem. Curioso é que enquanto os adultos se deixam mobilizar mais por cenas que os arrastem ao riso e às lágrimas, as crianças, que também riem, praticamente não choram com o sofrimento do personagem, mas só se ficarem muito assustadas por uma cena qualquer.

Fonte: awebic.com

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Agradecimentos à minha esposa Margarida Guimarães