CRÍTICAS AO PISA
Prôs
Eduardo Simões e Margarida Guimarães
Piaget é
foi muito criticado, no passado, pela ênfase que dá aos resultados de seus
testes de nível mental, invariavelmente apresentados como um produto cultural,
e que, por conseguinte, não mediriam exatamente a inteligência, mas o nível de
inserção do jovem numa determinada cultura, sendo não raro confundido com os
famosos testes de QI, talvez uma consequência histórica do fato dele ter
trabalhado alguns anos no laboratório de Binet, o inventor desses testes.
Os
autores dessas críticas não têm ideia de como se faz uma testagem com o método
clínico de Piaget, tema de outro artigo mais à frente, pelo simples fato de que
os esses testes devem ser obrigatoriamente realizados com materiais de uso da
cultura da criança, sobre fenômenos que a criança pode produzir com suas mãos,
sem falar da importância que se dá à maneira como a criança explica o que
aconteceu ante seus olhos, e que também determina o nível de inteligência em
que ela está, sem com isso produzir qualquer efeito restritivo, mas fornecendo
ao professor dados valiosos para um diagnóstico razoavelmente exato, da melhor
forma de trabalhar com essa criança, para que ela aceda aos níveis mais altos
de inteligência, vista como uma capacidade de resolver problemas, desafios, seja
quais forem, seja aonde for, seja como for, tendo em vista ampliar as
possibilidades de sobrevivência do organismo.
De resto,
Piaget sempre foi muito cauteloso quanto às conclusões dos resultados de
testagens em alunos de culturas diferentes. Em um de seus livros ele comenta os
resultados de testagens feitas por um de seus colaboradores em escolas da
Martinica, uma colônia francesa, cujas crianças mostraram um atraso de quatro anos,
na entrada do estádio operatório, quando comparadas com crianças francesas. Ele
então comenta a possibilidade disso refletir as deficiências físicas e de
mão-de-obra, o preparo dos professores, das escolas martinicanas, quando
comparadas às suas congêneres francesas, e da possibilidade de isso intervir no
resultado final dos testes. A isso ele acrescenta um fato curioso: o pai de uma
das crianças, que se saiu particularmente mal na testagem, construíra,
recentemente, uma casa sobre uma plataforma, uma palafita, e ao terminá-la
descobriu que havia se esquecido de erguer uma escada, precisando da ajuda dos
vizinhos para descer de lá!
Surge o PISA
Seja
como for essas questões pretéritas perderam relevância frente aos novos
desafios lançados pelos testes internacionais, que estão retomando o mesmo caminho
dos antigos testes de inteligência, sem que a maioria se dê conta, ou se deu
não se importou, com o agravante de que eles aparecem com o aval de importantes
comunidades de... políticos, que em vários países do globo, estão aplicando
enormes solavancos em seus sistemas educacionais por conta dos resultados desses
testes: no Peru, ilustres senadores e deputados chegaram a sugerir um “estado
de emergência educacional”, depois do último lugar nos testes do PISA, para
alívio do Brasil. Essa vocação tragicômica de nossos políticos!
Antes de
sair derrubando tudo ou criar testes semelhantes para caricaturar a inciativa
da OCDE – sigla em francês de Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico, um grupo de 34 países que têm como meta comum a defesa da democracia
representativa, a economia de livre mercado, e o uso de índices econômicos e
sociais (PIB e IDH) para definir que países são desenvolvidos ou não, e, por
conseguinte, se atingem índices mínimos, podem fazer parte da organização –
esses países fariam melhor se refletissem mais sobre as características do
sistema de testagem, certificando-se de que ele mede exatamente o que diz
medir: a inteligência, ou seja, a capacidade genérica para resolver problemas
universais, em crianças que atingiram um determinado nível de escolaridade
(entre 15 e 16 anos).
Entidade
exclusivamente europeia, a Organização ampliou os seus quadros para receber
países desenvolvidos de fora do continente, como EUA, Japão, Coreia do Sul,
Turquia, Nova Zelândia, Austrália, Israel. Da América Latina, comparecem à OCDE
o México e o Chile, enquanto a Colômbia está na sala de espera. O Brasil teria
que melhorar muito seus indicadores econômicos e sociais para se agregar ao
órgão pela porta da frente, preferindo, no momento, o ingresso por meio da
janela do quarto de empregada, participando do PISA.
Criado a
partir de uma iniciativa australiana, os testes do PISA, se apresentaram com o
suposto intuito de promover a melhoria dos sistemas educacionais dos países membros,
partindo do princípio que todas as sociedades organizadas nos países que compõe
a OCDE, ou lhe são parceiros, têm exatamente os mesmos objetivos nacionais e
educacionais, e quiçá almejam o mesmo nível de vida e sistema de cultura, o que
é um grande disparate, caso contrário não faria sentido um sistema de avaliação
quantitativo, com o mesmo padrão para todos os países, comparando a todos numa
única escala.
A
Wikipedia francesa assim descreve um dos objetivos do PISA: “comparar as
performances de diferentes sistemas educacionais, a partir da avaliação de
competências adquiridas no final do Ensino Fundamental. Essas competências são
definidas como aquelas que todo cidadão
europeu médio [destaque meu] deve ter, para ser bem-sucedido no seu dia-a-dia,
aquilo.... que poderíamos chamar vagamente de cultura matemática ou um saber
ler. Trata-se de avaliar a maneira como os jovens [europeus] são capazes de
aplicar os seus conhecimentos na sua prática cotidiana, assim como seu nível
teórico no domínio das ciências e da linguagem” (tradução livre). Há algo mais
ideológico ou unilateralmente cultural do que isso? Mais parece que o PISA
seria um projeto da alta burguesia europeia de criar um mundo à sua imagem e
semelhança. Mas há mais, muito mais.
As críticas ao PISA
Na Wikipédia
espanhola o autor repara: “Na pontuação do QI [índice do qual discordamos, mas
do qual o autor do artigo se vale para fundamentar sua crítica correta] entram
em jogo diversos fatores que nada têm a ver com a escola, como: a genética, o
cuidado pré-natal e a alimentação na infância. Por isso é que os PISA dos
países com baixa renda per capita, ou com muitos imigrantes ou minorias
sociais, vão tão mau (tradução livre)”.
Isso é a
mais pura verdade, a saber: Portugal e Espanha, tiveram pontuação mais baixa
entre países da Europa Ocidental; a presença da escola profissionalizante na
Espanha e em Portugal é de 24% contra 65% da Finlândia – até a escolha de
direcionamento filosófico em sistemas de ensino de boa qualidade, esse teste
discrimina! A zona francesa da Bélgica apresentou resultados inferiores a da
zona neerlandesa, embora o sistema de ensino seja único! Na Suiça, os cantões
italianos se saíram melhores que os franceses e alemães, embora a França e a
Alemanha tenham se saído bem melhor que a Itália nos testes, mas a província de
Bolzano, uma das mais ricas da Itália, tenha conseguido índices altíssimos –
nesse caso se confirma a eficiência do fator “renda”. Na Finlândia, a minoria
sueca, que certamente sofre alguma discriminação, se saiu pior que os
finlandeses! No Canadá, a região francófona, Quebec, se saiu pior que as
províncias anglófonas. Na Espanha, as regiões de pior avaliação foram as
historicamente as mais pobres e abandonadas: Ceuta, Melila, Baleares,
Extremadura; já a região mais bem-sucedida foi Castela e Leão, a núcleo
dirigente da nação espanhola. Aqui para nós, é preciso gastar tanto dinheiro,
fazer tanto alvoroço, para saber daquilo que nós já estamos carecas de saber?
Mas tem mais.
Outra
crítica que o verbete alevanta é sobre a grande diferença que se observa entre
os resultados dos testes da TIMSS (Tendências Internacionais na Aprendizagem de
Matemática e Ciências), criado pela IEA (Associação Internacional para a
Avaliação Aquisição de Aprendizagem), com sede na Holanda, e os do PISA.
Naqueles, os países do leste europeu, com mais baixa renda per capita, que têm
resultado medíocres no PISA, conseguem ficar acima, inclusive da Finlândia,
confirmando a histórica capacidade dos povos eslavos para a matemática. Até o
Kazaquistão (54º no PISA) se destacou (5º no TIMSS)! Aliás, nos testes do
TIMSS, países como EUA, Inglaterra, Israel, Rússia, conseguiram, em alguns
níveis de escolaridade, ficar entre os dez melhores, algo muito mais compatível
com a reconhecida excelência de seus sistemas educacionais, estranhamente não
detectada no PISA (confira http://elgastoeducativodominicano.wordpress.com/2012/02/09/414/#)
A Wikipédia
inglesa problematiza a participação chinesa no PISA, uma vez que ela foi
restrita à cidade de Xangai, e imediações, a região econômica mais dinâmica da
China atual, e que foi saudado pelo mundo afora como uma conquista espetacular,
embora, não pelos chineses. Num documentário sobre a educação em Xangai,
mostrado na TV Futura, mostra uma autoridade afirmando que a causa do sucesso
chinês se deve ao fato de os testes do PISA favorecerem aquilo em que os
chineses são bons: “memória e displina”, justo o oposto daquilo que os
representantes do PISA dizem que os testes medem, e que ele estaria inseguro
dos resultados se os testes fossem feitos nas regiões mais pobres – afora as
críticas ao PISA, porém, não podemos deixar de reconhecer que a China está
fazendo um esforço enorme e meritório para aprimorar seu sistema de ensino, ao
contrário daqui, com a valorização social e profissional do professor, e uma
estratégia que induz às escolas bem-sucedidas a apadrinharem escolas
fraquinhas, acumulando e transferindo know-how, enquanto aqui tudo começa do
zero, para não ‘encher a bola’ do adversário político.
Mas os
chineses tinham outro ‘truque’ nas mangas: o seu sistema interno de controle de
população, houku, que desloca milhões de estudantes para as cidades, para
concluir o ensino fundamental, e depois os obriga a retornar ao campo, quando
completam... 15 anos, conforme matéria apresentada pela jornalista do New York
Times, Helen Gao, (http://sinosphere.blogs.nytimes.com/2014/01/23/shanghai-test-scores-and-the-mystery-of-the-missing-children/?_php=true&_type=blogs&_r=0).
Ou seja, para a avaliação só ficaram dos estratos mais altos e urbanos da
sociedade xangaiense, enquanto os do meio rural, menos afeitos à cultura
ocidental urbana, que os testes do PISA medem, eram habilmente descartados. O
porta-voz do PISA, Andreas Schleicher, saiu em defesa do PISA, mas, pressionado
foi obrigado a reconhecer que 27% das crianças de 15 anos de Xangai ficaram
fora do teste, quando nos países desenvolvidos esse número gira em torno de
10%, o que comprometia qualquer forma de comparação (ver o artigo de William
Stewart, http://news.tes.co.uk/b/news/2014/03/05/more-than-a-quarter-of-shanghai-pupils-missed-by-pisa.aspx).
Concluindo,
“o pedagogo Yong Zhao notou que o PISA não recebeu muita atenção na mídia
chinesa, e que as altas pontuações obtidas são devidas a enorme carga de
trabalhos e testes que o estudante realiza, e acrescenta que ‘não é novidade
que o sistema educacional chinês é ótimo na preparação de alunos para exames,
como outros sistemas construídos dentro do círculo cultural confucionista, ou
seja, Coreia, Cingapura, Japão e Hong Kong’” (Wikipédia em inglês, tradução
livre). É aqui que está o ‘pulo do gato’, uma escola rígida, hierárquica,
disciplinadora, gerontocrática, muitas vezes milenar; justo naquilo em que eles
são visceralmente diferentes de nós, para o melhor e o pior. Vejam essas
mensagens deixadas no blog do professor Zhao: “desde que minha filha entrou
para o 7º grau (mais ou menos nossa 7ª série), ela passou a ter aulas noturnas
extras. A princípio essas aulas iam até 18:50 h, e eu aceitei... Mas quando ela
chegou ao 9º grau as aulas se estenderam até 20:40 h. Para os alunos que estão
se graduando, as aulas no sábado vão das 7:30-20:00. Há também cinco semanas de
aulas no inverno e nas férias de verão” (depoimento de uma mãe)... “Vocês,
adultos, trabalham das 9:00 às 17:00 h [na China], e nós somos obrigados a
trabalhar até 18 horas por dia” (queixa de um aluno) – confira http://zhaolearning.com/2010/12/10/a-true-wake-up-call-for-arne-duncan-the-real-reason-behind-chinese-students-top-pisa-performance/.
Isso é razoável? É isso que queremos para nossos filhos? Para onde isso pode
nos levar?

http://img.timeinc.net/time/daily/2010/1012/360_china_education_1207.jpg
É assim que se estuda na China, para o PISA, junho de 2008; foto de
Claro Cortes IV, Reuters
Há uma
longa discussão, dentro dos estados Unidos. Sobre o baixo índice dos estudantes
americanos no PISA. Os opositores dizem que há um erro de amostragem que acaba
superdimensionando a participação dos alunos mais pobres, enquanto os
defensores do teste afirmam que os resultados dos jovens pobres da Finlândia
também são bons. Mas ai fica a questão: o percentual de pobres nos dois países
é semelhantes? Segundo, a pobreza na Finlândia, um país de cultura
tradicionalmente estimula a cooperação, até como uma forma de conviver ou
enfrentar com vizinhos poderosos, tem tanto “peso” que nos Estados Unidos, que
apostou pesadamente justo no oposto, na concorrência, na competição; o paraíso
dos vencedores, e o inferno dos perdedores? Será que isso não faz diferença, e
essas diferenças não devem fazer parte das análises, principalmente dos
gestores educacionais, antes de partirem para reformas extemporâneas.
Que
dizer a respeito da participação de migrantes, muito maior nos Estados Unidos
(e no Brasil) que na Finlândia, e da dificuldade de montar um sistema de ensino
que abranja ao mesmo tempo a tamanha diversidade cultural? Em São Paulo
simplesmente se partiu para a camisa de força da Secretaria Escolar Digital. A Finlândia possui alguns milhares de
imigrantes russos, suecos, estonianos, todos de cultura báltico-escandinava,
enquanto os Estados Unidos, e em menor escala o Brasil, possui milhões de
imigrantes vindos de toda parte do mundo. Isso não faz diferença? Os americanos
também se queixam, com razão, da forma precipitada com que os dados dos exames
são tabulados e conclusões temerárias são tiradas e espalhadas aos quatro
ventos, sem uma analise mais apurada. Essa precipitação ficou bem visível
quando o porta-voz do PISA Andreas Schleicher, um estatístico alemão, com
pendor à educação, para desgraça desta, tentou justificar o sucesso da China
dizendo que Shangai estava experimentando uma “maré de mudanças na pedagogia”
(verbete PISA, Wikipedia inglesa, tradução livre), abandonando “o foco da
educação, do preparo de uma pequena elite para o trabalho e a construção de um
sistema mais inclusivo, Eles também melhoraram muito o salário e a formação do
professor, reduzindo a ênfase na aprendizagem para realização de projetos em
sala de aula e solução de problemas” (idem), negando a sua cultura seis vezes
milenar! A China virou um país burguês ocidental, e, ainda mais admirável, sob
a batuta de um partido comunista! Essas afirmações são desmentidas
esculachadamente pela foto acima e pelo professor Yong, que é chinês desde que
nasceu. Ou seja, o PISA não mede o que diz medir, da mesma forma que o ENEM, que
empurrou as escolas públicas para projetos sem fim e sem cabimento, acaba
premiando escolas tradicionais, mas eficientes, como o Colégio São
Bento, do Rio.
(Confira http://content.time.com/time/world/article/0,8599,2035586,00.html
). Outra denúncia que os americanos fazem é que as medidas tomadas para
melhorar o desempenho em matemática dos estudantes americanos, já começaram a
surtir efeito, e isso já apareceu tanto nos testes do TIMSS e como nos exames
internos, mas continuam ocultos no PISA.
Se você,
caro leitor, reparar bem, verá que os países que invariavelmente encabeçam a
lista do PISA, e também, mas em menor escala, no TIMSS, têm uma série de
características comuns que não podem passar batidas por quem deseja saber
realmente o que está acontecendo na educação mundial. Consideremos os doze
primeiros colocados do PISA de 2012, em Matemática
(Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Macau, Japão, Liechtenstein, Suiça, Holanda,
Estônia, Finlândia) e Leitura (Hong
Kong, Cingapura, Japão, Coreia do Sul, Finlândia, Taiwan, Canadá, Irlanda,
Polônia, Liechtenstein, Estônia). Em Ciências,
os doze primeiros países se repetem com duas novidades: Vietnam e Alemanha.
Todos
esses países, ou cidade-estado, têm um altíssimo nível de renda per capita, a
exceção do Vietnam (essa foi a única vez que um país pobre apareceu nas
primeiras posições); em todos esses países a renda não está muito concentrada,
como acontece, inclusive, em diversos países desenvolvidos do Ocidente; todos
esses países são culturalmente, e até racialmente, muito uniformes, têm uma
população razoavelmente homogênea (exceção parcial do Canadá e da Alemanha, mas
que não se comparam com a diversidade brasileira, americana, inglesa ou
francesa); essas sociedades existem como nação, embora nem sempre como país, há
muitos séculos ou milênios (a exceção do Canadá); todos esses países ocupam uma
área territorial irrisória, que favorece o controle de qualidade de um bom
sistema educacional e outras vantagens sociais (a exceção parcial do Canadá,
que, embora possua um território imenso, boa parte desse território não é ocupada,
coberta permanentemente por florestas e gelo). Nós, e os americanos, jamais
seremos como esses países; jamais conseguiremos os mesmos resultados que eles
em testes como esses. Porque então ficarmos correndo atrás disso, ao invés de
procurarmos melhorar os nossos índices a partir de nossa realidade e de
indicadores compatíveis com as nossas características?
Infelizmente
não é isso o que acontecem aqui nem nos Estados Unidos, segundo o professor
Andy Hargreaves, em seu livro O ensino na
sociedade do conhecimento, onde narra que as autoridades educacionais
americanas e canadenses, mais aquelas, preocupadas com o baixo desempenho
nesses testes, estão intervindo na educação de forma açodada, procurando
melhorar os índices das escolas principalmente por meio de estímulos financeiros
e o acirramento da competição entre escolas e professores, com resultados
lamentáveis, como a quebra da solidariedade entre os professores, que se reflete
inclusive na omissão de informações relevantes sobre os alunos, para que o
rival não cresça em detrimento do professor que “falou demais”; na
estigmatização dos alunos mais fracos, em geral os mais pobres, e nas escolas
situadas nos bairros abandonados, onde os resultados são mais baixos. Os
professores, motivados pelos bônus vindos dos bons resultados, não querem saber
de ir para essas escolas, que ficam com os professores menos hábeis. Minha
filha ouviu de professores residentes americanos em sua faculdade, que os
professores de Ensino Fundamental e Médio de lá, transtornados pelo sistema de
testagem, que premia aquele que conseguir um aumento mais expressivo da nota de
seu alunos, em duas testagem anuais, simplesmente paralisam as aulas antes da
primeira testagem, para puxarem tudo após esta, e conseguir o maior diferencial
de nota possível, e, consequente, bônus maior. Já a aprendizagem e a educação....
Gostaria
de terminar com um texto de Hargreaves, que, embora construído a partir da
realidade americana, estranhamente reflete o que está acontecendo com o sistema
escolar público do meu estado, derivado da preocupação das autoridades, tanto
as daqui como as de lá, em conseguir um melhor desempenho em testes tipo PISA:
“A melhoria dos padrões desempenho, na forma de metas... ou a ênfase excessiva
na alfabetização e na aritmética marginaliza a atenção dada ao desenvolvimento
pessoal e social, que é o alicerce da comunidade, e eliminam a atenção
interdisciplinar à educação global, que está no coração da identidade
cosmopolita... na reforma padronizada os professores são tratados e formados
não como trabalhadores do conhecimento de habilidades e capacidades elevadas,
mas como geradores de desempenhos padronizados, complacentes [creio que a melhor
tradução seria “inermes” ou “amorfos”] e monitorados de perto. Professores com
vidas profissionais supercontroladas [será que falaram sobre o SED lá nos EUA,
ou seria o SED uma cópia de um desatino americano] reclamam de falta de
autonomia, criatividade perdida, flexibilidade restrita e capacidade limitada
para exercer seu julgamento profissional... a comunidade profissional desaba”
(Artmed; 2004; pg 22).
Gostaria
também de ter dedicado mais espaço nesse artigo a dados e opiniões de
brasileiros, mas vivemos em um país estranhamente apegado à unanimidade. Que
nos valha Nelson Rodrigues!
(visite os blogues memoriaecritica.blogspot.com.br - historiatexto...)