EDUCAÇÃO PIAGETIANA
Prôs Eduardo Simões e Margarida Guimarães
Segue controversa,
em determinados meios, a questão se é correto ou não falar em “educação
piagetiana”, uma vez que Piaget não foi um educador de carreira, não teve
formação em pedagogia, nem se preocupou explicitamente em criar um método ou
uma teoria educacional, como o fizeram os grandes referenciais da área.
Comenius, Pestalozzi, Decroly, Claparede, Montessori, Paulo Freire, Anísio
Teixeira, etc. Entretanto, seria igualmente incorreto dizer que a causa da
educação e dos grandes problemas educacionais lhe fossem estranhos, como nos
apontam vários títulos de sua imensa bibliografia, escritos sob os auspícios da
UNESCO, especificamente dirigidos a professores e gestores educacionais, dos quais
os mais conhecidos entre nós são: Para
onde vai a educação, Psicologia e
pedagogia.
O que
sabemos até agora sobre essa faceta Piaget é a ponta do iceberg, de tal sorte
que mesmo eu, que há tanto tempo me interesso e pesquiso sobre a obra de
Piaget, tendo inclusive privado da proximidade com seu maior intérprete em
língua portuguesa, o professor Lauro de Oliveira Lima, fui pego de surpresa,
quando da internet, por acaso, a biografia de Piaget, do professor Alberto
Munari, onde ele cita 51 entradas, de livros, artigos de jornais e revistas,
inclusive dezenas dos discursos que ele anualmente proferia, enquanto foi
diretor do Birô Internacional de Educação, da UNESCO, por 38 anos!
A
bibliografia citada por Munari é uma verdadeira mina de ouro, embora quase toda
acessível só a quem saiba inglês ou francês, e contém títulos absolutamente
apaixonantes para nós como: A atualidade
de Jean Amos Comenius; O direito à
educação no mundo atual; A educação
da liberdade; É possível uma educação
para a paz?; A evolução social da
Nova Pedagogia; A psicologia da
criança e o ensino de história; Observações
sobre a psicologia do ensino de ciências naturais em turmas elementares; Observações psicológicas sobre o
self-goverment. Alguns desses títulos, quase centenários (de 1930), mas de
uma modernidade impressionante, fizeram sua estreia recentemente em nosso país
num livro organizado por Silvia Parrat e Anastasia Tryphon, Jean Piaget - sobre a educação, textos
inéditos; da editora Casa do Psicólogo.
Nada
mais, pois, justifica a negativa em reconhecer os méritos de Piaget na área
educacional, e a grande dívida que esta tem com aquele, ainda que isso não
implique em reconhecer algum método educacional específico de sua autoria, sem,
contudo, descartar aprioristicamente um método que se apresente como de matriz
piagetiana, que segue as diretrizes e descobertas continentes na epistemologia
genética, pelo simples pretexto de que ele não educador. Existem métodos e
educação piagetianos, embora não exista um método Piaget para a educação, da
mesma forma como existe um método Montessori.
Aos
professores que conhecem a extensão e a profundidade de sua obra só lhes resta
agradecer o seu interesse invulgar pela nossa área, sentirem-se orgulhosos do
indicativo que isso dá sobre a importância do nosso trabalho e buscar entender
melhor como as suas descobertas na área de psicologia e epistemologia podem
ajudar e aprimorar a nossa prática discente. O que nos leva à segunda parte
deste artigo: o que é necessário para que uma abordagem educacional seja
considerada genuinamente piagetiana.
Fundamentos de uma educação piagetiana
1- O
conhecimento é fruto da ação da criança sobre os objetos sociais e naturais que
a cercam: isso significa que o professor deve orientar as suas propostas
didático-pedagógicas no sentido de estimular a manipulação física, mental e
verbal dos conteúdos que ele apresentar – pode ser desmontar algo para ver o
que tem dentro, misturar os componentes de uma mistura, imaginar mentalmente
como ficaria determinado objeto em um espaço de três dimensões ou o resultado
de uma equação, encenar um texto para demonstrar que o entendeu ou reproduzi-lo
com suas palavras, participar de um debate, etc.
O que se
deve evitar: o excesso de aula expositiva; aquelas perguntas que induzem a uma
única resposta, em especial aquelas em que os alunos só precisam completar o
que o professor está falando: “como eu disse, quem descobriu o Brasil foi... ;
responder sempre a tudo exaustivamente, não deixando escapar nenhum detalhe,
matando a curiosidade do aluno de pesquisar mais (responda fazendo perguntas,
levando, orientando ou estimulando mais uma pesquisa do aluno), etc. Há um
aforismo de Piaget que coloca claramente essa questão: “tudo que se ensina a
uma criança (ou jovem) impede que ela invente ou descubra”.
2 – A
capacidade de aprender cresce gradativamente com o amadurecimento da criança,
em estruturas de caráter mais complexas e flexíveis, descritas pela
Epistemologia Genética: ou seja, o professor precisa conhecer o estádio mental
em que se encontram as suas crianças para poder lhes propor tarefas que estejam
ao seu alcance (um jovem do Ensino Médio pode explicar o arranjo dos elementos
na equação da Teoria Geral da Relatividade, E=mc², enquanto uma criança da
Educação Infantil poderá, quando muito, colorir os sinais dessa equação). Desse
fundamento se tira a necessidade do professor conhecer razoavelmente os
principais conceitos da Epistemologia Genética e as características das
crianças e jovens de cada fase. Em uma pedagogia piagetiana, a psicologia ganha
um relevo surpreendente. Para conhecer essas características o professor deve
se basear tanto em suas avaliações de rotina como em observações
comportamentais à distância, algo muito difícil no nosso sistema.
O que se
deve evitar: generalizações precipitadas.
3 – O
desenvolvimento da inteligência ou cognição, apresenta uma certa solidariedade
com o desenvolvimento da afetividade e da socialização: por isso o professor
deve observar seus alunos quanto ao desenvolvimento de sua afetividade (capacidade
de mobilizar suas forças internas, sua vontade, para resolver algum problema
dos conteúdos formais ou de relacionamento), assim como de sua socialização ou
capacidade de interagir com grau de autonomia cada vez maior com seus pares e
professores. Isso tudo norteado pela inteligência. Um exemplo disso seria um
bate-boca durante uma partida de futebol: um jovem inteligente procuraria acalmar
a situação, enquanto outro já sairia batendo ao primeiro estresse.
O que se
deve evitar: uma metodologia de trabalho que valorize apenas a construção de
conceitos científicos, matemáticos ou linguísticos, como acontece em nossas
escolas. Seria um absurdo a uma educação ou sistema que se diz piagetiano
trabalhar apenas o cognitivo da criança.
4 – A
socialização e a troca entre iguais (aluno-aluno) é muito mais relevante para o
desenvolvimento da criança que a relação professor-aluno: por isso o professor
deve sempre estimular a participação dos alunos (para fazer isso não raro eu
lanço uma pergunta e saio de carteira em carteira inquirindo a opinião do
aluno, para que ele se sinta fazendo parte da turma, e não só de sua panelinha,
sem falar que ele percebe que eu o notei), principalmente por meio do trabalho
de grupo. Entenda-se bem, o trabalho e grupo não aboli completamente a aula
expositiva, esta pode ser um complemento importante, quando encaixada
corretamente na proposta do professor, principalmente nos conteúdos mais
complexos, mas aqui bem vale uma adaptação, pelo professor, das palavras de
João Batista: “é preciso que eles cresçam e eu diminua!”. Piaget diria isso de
outra maneira: “o melhor brinquedo para uma criança é outra criança, de
preferência do mesmo nível mental”.
O que se
deve evitar: ignorar ou exaltar as crianças “bem comportadinhas”, que se isolam
solitárias, como se não fizessem parte da turma, ou se afastam do grupo, e até
brigam com este, para ficar bajulando o professor. O aluno do Ensino
Fundamental, principalmente a partir do 6º ano, que age assim, é um imaturo e o
professor precisa orientá-lo para que interaja mais com seus pares e menos com
ele.
5 – A
educação é um processo de análise crítica do conhecimento e não apenas sua mera
reprodução: é evidente que nas séries iniciais a educação, pela característica
ainda egocêntrica das crianças, tenderá a ser muito diretiva e reprodutora de
comportamentos consagrados, mesmo porque essas crianças precisam disso, e se
não encontrarem acolhida no professor poderão se desorganizar perigosamente,
mas o professor deve sempre orientá-las para que elas pouco a pouco se livrem
de sua influência e comecem a construir comunidades infanto-juvenis viáveis, de
acordo com as possibilidades do ambiente onde a escola está.
É muito
incorreto dizer que em uma educação piagetiana o professor perde sua
importância e o seu relevo como agente transformador do indivíduo e da
sociedade, pois o que ele perde é a falsa segurança de uma autoridade baseada
apenas na força, o que não exime os alunos da obrigação grave de respeitar os
esforços de seus mestres em educá-los nas condições tão difíceis que ora se
apresentam, não se justificando a leniência e o desinteresse dos burocratas em
blindar os professores com leis e proteções que revelem o real apreço por que
lhe tem a sociedade, e que é mais que merecido, pelo menos nas sociedades que
ainda não perderam o juízo.
O seu
papel de animador de um processo tão complexo como a formação de um ser humano,
principalmente dentro de um matiz piagetiano, quando ele se torna um
incentivador e não o sujeito do progresso de seus pupilos, exige um esforço de
orientação e superação gigantesco do qual os burocratas da nossa educação não
fazem a menor ideia, mas eles, os professores, não devem esmorecer, sabendo que
o que puderem acrescentar à sua formação e à formação das futuras gerações
redundará para o bem de todos, e isso depende muito mais do professor do que de
qualquer outro profissional dentro de nossa sociedade.
Mão à
obra!
(visite os blogues: historiatexto.blogspot.com.br - memoriaecritica...)
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