EDUCAÇÃO

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

AS DIFICULDADES DE PIAGET OU COMO SE ACHAR NELE SEM FICAR PERDIDO

            Prôs Eduardo Simões e Margarida Guimarães

            Nós, os professores, ficamos desolados, sentindo até uma forte decepção, quando tentamos se aproximar diretamente da obra de Piaget, que parece realçar a nossa pequenez ou incapacidade intelectual, por conta da prolixidade do autor, da estranheza dos temas, dos conceitos extravagantes, em geral retirados de áreas das ciências exatas e da matemática, além da citação de autores desconhecidos por nós, e que Piaget parece tratar como se fosse nossa obrigação conhecê-los. A causa disso pode ser o seguinte:
            1º - Piaget cresceu e se formou em um ambiente acadêmico estranho para nós, que começamos a ter acesso à sua obra nos anos 1950-60, quando já éramos fortemente colonizados pela cultura acadêmica norte-americana: o mundo acadêmico europeu da primeira metade do século XX. Os pesquisadores acadêmicos da Europa desta época foram profundamente conhecidos por Piaget, que conviveu com a maioria deles, e sempre viveu agregado ao ambiente universitário – ele era filho de um professor universitário. Pouco se sabia, aqui, sobre o trabalho desses homens, no momento em que os livros dele começaram a ser publicados aqui, impulsionados por sua fama internacional, tardiamente percebida entre nós.
            2º - É fato que Piaget tinha um volume de leitura e uma compreensão dos estudos que lia das mais variadas áreas do conhecimento simplesmente colossal, quase sobre-humana. É incrível a extensão e a profundidade com que trata de questões complexas das mais diversas áreas do saber, sem o menor pudor em expressar isso em suas obras, afogando-nos com uma massa de dados estranhos, cuja conexão com aquilo que ele apresenta no momento parece, por vezes, estranha ou descabida, e quem diz isso é o pesquisador americano John Flavell.
            3º - A linguagem de Piaget é muito técnica, pois a maioria dos livros que foram editados no Brasil, em geral na área de epistemologia, foi escrita para esclarecer questões sobre as suas hipóteses, e hipóteses de outros, surgidas nos meios universitários, em congressos e institutos de pesquisa. É um discurso de especialista para especialista, em uma área que não é a dos professores, e é por isso que ele nunca se dá ao trabalho de esclarecer termos que obscuros ao grande público, porque não foi para este que ele escreveu o livro, podendo até, tal preocupação didática, parecer ofensiva ao cientista ou grupo de cientistas a quem Piaget está respondendo por meio daquela obra. Ai de nós que somos “leigos”.
            4º - Educado na cultura europeia tradicional, e ainda mais francesa, “pardon”, Piaget é, por isso, prolixo, muito prolixo, mesmo quando, aparentemente, não havia necessidade de tanto, o que torna bastante monótona a leitura atenta de suas obras para quem não é do ramo ou não partilha rigorosamente das mesmas preocupações que ele. Por exemplo, nós, professores.
            5º - Mas as dificuldades não acabam na Europa. Como conseguir, numa realidade tão distante e dominada por outros valores e prioridades, como a nossa, tradutores a altura da imensa erudição e dos interesses deste autor? Pois é, nem sempre isso foi possível, inclusive com algumas de suas obras capitais, editadas no Brasil por uma grande editora a Zahar, mas que, infelizmente, saíram tão mal traduzidas que o texto, por vezes, fica sem sentido. Ouvi vários especialistas dizerem que ainda faltam boas traduções das principais obras de Piaget no Brasil.
            6º - A solução então é buscar uma leitura indireta de sua obra, já ‘amaciada’ por algum especialista, principalmente da área da educação, que a traduza de forma adequada, compatível com a nossa formação e especialidade, na qual têm se destacado ultimamente dois autores no Brasil: Yves de La Taille e Lino Macedo, embora se tenha feito uma opção político-pedagógica generalizada pela abordagem estreita e equivocada da pesquisadora mexicana Emilia Ferreiro – cujo esposo, Rolando Garcia, foi um dos colaboradores mais próximos de Piaget – um dos grandes equívocos da nossa educação, e uma fonte de comprometimento permanente do termo “construtivismo”, entre os nossos professores.
            Nós, pessoalmente, tivemos a boa sorte de convivermos e aprendermos muito do que sabemos sobre a teoria de Piaget e a sua aplicação em sala de aula por meio de seu maior interprete mundial em educação, que foi o professor Lauro de Oliveira Lima, um piagetiano visceral, e um homem que, com a sua equipe, conseguiu não só uma tradução clara e revolucionária da teoria de Piaget como um projeto de aplicação dessa mesma teoria em sala de aula, num projeto educacional completo: a Escola Chave do Tamanho, no Rio de Janeiro, e o método psicogenético. Dando continuidade ao seu trabalho, temos as suas filhas Ana Elisabeth e Adriana Oliveira Lima. Esta já escreveu vários livros sobre o assunto. Recomendamos!
           

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