AS DIFICULDADES DE PIAGET OU COMO SE ACHAR NELE SEM
FICAR PERDIDO
Prôs
Eduardo Simões e Margarida Guimarães
Nós, os
professores, ficamos desolados, sentindo até uma forte decepção, quando tentamos
se aproximar diretamente da obra de Piaget, que parece realçar a nossa pequenez
ou incapacidade intelectual, por conta da prolixidade do autor, da estranheza
dos temas, dos conceitos extravagantes, em geral retirados de áreas das
ciências exatas e da matemática, além da citação de autores desconhecidos por
nós, e que Piaget parece tratar como se fosse nossa obrigação conhecê-los. A
causa disso pode ser o seguinte:
1º - Piaget
cresceu e se formou em um ambiente acadêmico estranho para nós, que começamos a
ter acesso à sua obra nos anos 1950-60, quando já éramos fortemente colonizados
pela cultura acadêmica norte-americana: o mundo acadêmico europeu da primeira
metade do século XX. Os pesquisadores acadêmicos da Europa desta época foram
profundamente conhecidos por Piaget, que conviveu com a maioria deles, e sempre
viveu agregado ao ambiente universitário – ele era filho de um professor
universitário. Pouco se sabia, aqui, sobre o trabalho desses homens, no momento
em que os livros dele começaram a ser publicados aqui, impulsionados por sua
fama internacional, tardiamente percebida entre nós.
2º - É
fato que Piaget tinha um volume de leitura e uma compreensão dos estudos que
lia das mais variadas áreas do conhecimento simplesmente colossal, quase
sobre-humana. É incrível a extensão e a profundidade com que trata de questões
complexas das mais diversas áreas do saber, sem o menor pudor em expressar isso
em suas obras, afogando-nos com uma massa de dados estranhos, cuja conexão com
aquilo que ele apresenta no momento parece, por vezes, estranha ou descabida, e
quem diz isso é o pesquisador americano John Flavell.
3º - A
linguagem de Piaget é muito técnica, pois a maioria dos livros que foram
editados no Brasil, em geral na área de epistemologia, foi escrita para
esclarecer questões sobre as suas hipóteses, e hipóteses de outros, surgidas
nos meios universitários, em congressos e institutos de pesquisa. É um discurso
de especialista para especialista, em uma área que não é a dos professores, e é
por isso que ele nunca se dá ao trabalho de esclarecer termos que obscuros ao
grande público, porque não foi para este que ele escreveu o livro, podendo até,
tal preocupação didática, parecer ofensiva ao cientista ou grupo de cientistas
a quem Piaget está respondendo por meio daquela obra. Ai de nós que somos
“leigos”.
4º -
Educado na cultura europeia tradicional, e ainda mais francesa, “pardon”, Piaget
é, por isso, prolixo, muito prolixo, mesmo quando, aparentemente, não havia
necessidade de tanto, o que torna bastante monótona a leitura atenta de suas
obras para quem não é do ramo ou não partilha rigorosamente das mesmas preocupações
que ele. Por exemplo, nós, professores.
5º - Mas
as dificuldades não acabam na Europa. Como conseguir, numa realidade tão
distante e dominada por outros valores e prioridades, como a nossa, tradutores
a altura da imensa erudição e dos interesses deste autor? Pois é, nem sempre isso
foi possível, inclusive com algumas de suas obras capitais, editadas no Brasil
por uma grande editora a Zahar, mas que, infelizmente, saíram tão mal
traduzidas que o texto, por vezes, fica sem sentido. Ouvi vários especialistas
dizerem que ainda faltam boas traduções das principais obras de Piaget no
Brasil.
6º - A
solução então é buscar uma leitura indireta de sua obra, já ‘amaciada’ por
algum especialista, principalmente da área da educação, que a traduza de forma adequada,
compatível com a nossa formação e especialidade, na qual têm se destacado ultimamente
dois autores no Brasil: Yves de La Taille e Lino Macedo, embora se tenha feito
uma opção político-pedagógica generalizada pela abordagem estreita e equivocada
da pesquisadora mexicana Emilia Ferreiro – cujo esposo, Rolando Garcia, foi um
dos colaboradores mais próximos de Piaget – um dos grandes equívocos da nossa
educação, e uma fonte de comprometimento permanente do termo “construtivismo”,
entre os nossos professores.
Nós,
pessoalmente, tivemos a boa sorte de convivermos e aprendermos muito do que
sabemos sobre a teoria de Piaget e a sua aplicação em sala de aula por meio de
seu maior interprete mundial em educação, que foi o professor Lauro de Oliveira
Lima, um piagetiano visceral, e um homem que, com a sua equipe, conseguiu não
só uma tradução clara e revolucionária da teoria de Piaget como um projeto de
aplicação dessa mesma teoria em sala de aula, num projeto educacional completo:
a Escola Chave do Tamanho, no Rio de Janeiro, e o método psicogenético. Dando
continuidade ao seu trabalho, temos as suas filhas Ana Elisabeth e Adriana
Oliveira Lima. Esta já escreveu vários livros sobre o assunto. Recomendamos!
(visite
nossos blogues: historiatexto.blogspot.com.br – memoriaecritica...)
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