EDUCAÇÃO

EDUCAÇÃO

Índice
Parâmetros Para uma Educação Piagetiana - Recepção e Despedida de Crianças - 

PARÂMETROS PARA UMA EDUCAÇÃO PIAGETIANA (BASEADO EM TEXTOS DE LAURO DE OLIVEIRA LIMA) I

Prof Eduardo Simões
           
            1º - Estimule a atividade da criança desde o berço (móbiles, brinquedos diversos, etc.), e vá graduando a dificuldades dessas ações de acordo com a capacidade atual da criança, não esquecendo de que se a criança já sabe praticar uma ação (subir num degrau, resolver uma equação de primeiro grau, etc.), não há razão para continuar a praticá-la indefinidamente, como acontece, por exemplo, com os infindáveis exercícios de matemáticas. Erram, portanto, quem fica treinando e estimulando criança, por meio de prêmios e solicitações constantes, principalmente para impressionar aos amigos, para que repitam sem cessar o que aprenderam a fazer. Essas repetições empobrecem a vivência da criança e a “acomodam”, no sentido pejorativo. Quando a criança recebe reforços positivos para fazer algo, ela o faz até a exaustão, e quem solicitou a repetição, em geral, se exaure antes dela.
            2º - A criança, como todo mundo, gosta de sentir o reforço positivo quando consegue atingir um objetivo (uma nova ‘habilidade’, digamos assim), e como é impulsionada, assim como todos nós, pela lei do menor esforço, um hábito inteligente, quando não compulsivo, é necessário que o adulto quebre aquela sequência de repetições ou “reação circular”, colocando obstáculos graduados no caminho. Nada que esteja acima de suas possibilidades físicas ou mentais, pois então gerará efeito justo oposto: frustração e desmotivação. Graduar corretamente as dificuldades ao conhecimento atual da criança é o verdadeiro “pulo do gato”.
            3º - Estimular desde a mais tenra idade, em grau cada vez maior, a vida social da criança  (ainda bebê a criança deve ser acostumada a receber visitas, e a não estranhar a presença de gente diferente na casa de seus pais), ajudando-a a integrar-se a grupos cada vez maiores e mais diversificados, segundo a sua capacidade física e mental, resguardada, é claro, a sua segurança. O grupo é para a criança a melhor fonte de obstáculos mentais e físicos adequados (conforme recomendamos em 1º e 2º), que aprimora a sua inteligência, a sua afetividade e a sua sociabilidade. Nunca é demais dizer: o grupo é fundamental. É o grupo que nos humaniza.
            4º - Os adultos devem se guardar de ficar “grudando” na criança – e isso vale tanto para os pais como para os professores. A criança deve ser estimulada, desde cedo, a tomar iniciativas e a resolver seus problemas, de acordo com as suas possibilidades. O importante é que seja ela a fazer as experimentações e a tirar as conclusões finais. Piaget dizia: “tudo que se ensina a uma criança impede que ela invente ou descubra”. Mães, pais, professores, contenham-se, pois a meta da educação é criar uma pessoa autônoma, e nunca um eterno dependente.
            5º - A criança deve ser estimulada à ação coletiva, a fazer as coisas junto com outra criança. Essa ação conjunta vai estimular a criança à cooperação com o seu meio social, o que lhe trará os mais amplos benefícios ao seu sistema mental, sem falar do orgânico, pois pesquisas mostram a importância de se ter amigos (1). A criança, ou adolescente, que vive isolada está com sérios problemas e precisa ser ajudada. Ela deve ser a maior preocupação de um professor, mais do que os alunos “levados”, e eu falo por experiência própria; pois numa escola pública eu consegui prever, com quase um ano de antecedência, os graves problemas que acabaram por acometeram uma adolescente que vivia isolada. No final ela se recuperou. Mas para vocês terem uma ideia do equívoco que domina essa área, uma supervisora da Diretoria de Ensino certa vez se colocou para mim como sendo um exemplo, pois “eu era uma garota quietinha, que não falava com ninguém, mas fazia tudo, e sempre tirei notas altas”. Hoje ela continua quietinha, fazendo o que lhe mandam. Eu quase lhe disse: “minha cara, seus professores lhe traíram”.
            6º - Quando a criança entra no estádio simbólico, lá por volta dos dois anos, algo bem perceptível pelo constante alheamento da criança, falando sozinha, dizendo coisas absurdas ou sem sentido; ao invés de reprimi-la, exigindo que ela fale com objetividade, que diga a “verdade”, que “lobo mal não existe!” E que: “não há mais ninguém na sala!” “Tá doido!”, antes, deve-se entrar na fantasia com ela, cercando-a de uma fantasia inocente e amistosa. “Vamos por os brinquedos para dormir”, ótimo na hora de prepara-la para o sono noturno, ou “deixa que eu vou tirar o lobo do quarto... Sai lobo!...Pronto, ele já foi, agora pode dormir”. Esse mesmo clima de fantasia deve permear as histórias que os pais e as professoras ditam para as crianças dessa fase, assim como tudo mais onde houver solicitação de fantasia por parte da criança.
            7º - Em hipótese nenhuma deve-se buscar acelerar o processo de desenvolvimento da criança, algo que Piaget ironicamente chamava de “mal americano”. De fato, quando a criança, espontaneamente, ou seja, por força de suas ligações internas, ultrapassa uma etapa do desenvolvimento, não suporta mais aquilo que é incompatível com a seu nível atual. Um adulto (pai ou professor) que chegasse falando de forma fantasiosa para uma criança intuitiva ou operatória, apenas faria, para esta, papel de bobo, de ridículo, ou na linguagem deles: pagaria o maior “mico”. A manutenção artificial de uma criança em um nível inferior ao do seu momento atual só é possível em uma escola que privilegie a repressão e o adestramento. Essa escola, com certeza, não é piagetiana.
            8º - A motivação de uma criança, em condições normais, ou seja, isenta de estresses incompatíveis com a sua idade e nível mental, se manifesta naturalmente em uma ação que, apesar de estar graduada no seu nível, representa algum desafio físico ou mental, ou de alguma forma preenche alguma necessidade física ou mental. “O interesse é o sintoma da necessidade”, dizia muitas vezes o professor Lauro, mostrando a inutilidade desses programas de educação baixados de cima para baixo, onde crianças e professores são meros executores ou cobaias, tal como é moda nos dias de hoje. A questão é descobrir o interesse da criança ou jovem e começar a estimulá-la por aí. O adulto precisa mergulhar no mundo do jovem para falar alguma coisa que faça sentido para este.
            9º - o trabalho em grupo é excelente para aparar os excessos e as carências do jovem ou da criança, desde que estruturado com regras e objetivos claros. O grupo equilibra o indivíduo, principalmente quando esse grupo e o jovem se comunicam com poucos mal-entendidos, por terem um nível mental semelhante. Quando o grupo é mentalmente muito heterogêneo a situação fica mais difícil; crianças, jovens e adolescentes não toleram quem demora muito a perceber as regras do jogo. Outros problemas são o excesso de interferência de adultos infantilizados no mundo de jovens e crianças, seja com as gangues nas comunidades da periferia, seja com os adultos “espertos” da classe média, e as salas superlotadas de nossas escolas públicas.
            10º - Cada disciplina tem uma estrutura própria, que provoca determinadas partes do intelecto para serem ativadas, e por isso também devem ter uma didática específica. Os elementos mentais mobilizados para entender o sentido de uma operação matemática não serão os mesmos mobilizados para se descobrir uma significação em um fato social ou histórico, etc.

Notas
(1) Leia só isso que está escrito no site http://www.tuasaude.com/: “Ter amigos faz bem à saúde, pois eles atenuam a solidão e proporcionam bem estar físico e emocional. Em contrapartida, quem não tem amigos está mais propenso a sofrer de depressão, insônia, perda da capacidade cognitiva, Alzheimer e doenças do coração. Isto ocorre porque há um aumento no hormônio cortisol na corrente sanguínea, que com o passar do tempo facilita o surgimento destas doenças”. Quem quiser ter informações mais detalhadas a respeito, o tuasaude recomenda um estudo americano sobre o assunto, “Loneliness and Health: Potential Mechanisms”, encontrado em. http://journals.lww.com/psychosomaticmedicine/Abstract/2002/05000/Loneliness_and_Health__Potential_Mechanisms.5.aspx. Ver também www.drogarianacoes.com.br/www/wp/?p=537

(visite o  blogue historiatexto.blogspot.com.br)




PARÂMETROS PARA UMA EDUCAÇÃO PIAGETIANA (BASEADO EM TEXTOS DE LAURO DE OLIVEIRA LIMA) II

Prof Eduardo Simões

http://imgc.allpostersimages.com/images/P-473-488-90/52/5271/Q1RZG00Z/posters/norman-rockwell-child-psychology-or-spanking-november-25-1933.jpg
Fonte: http://www.allposters.com/-sp/Child-Psychology-or-Spanking-November-25-1933-Posters_i7553506_.htm
Ah, dúvida cruel! Genial, Norman Rockwell! O nome desse pôster é: “Bato, ou sigo o manual de psicologia”.

            11º - A inteligência sempre se manifesta, ao indivíduo e aos outros, por meio de uma atividade: motora, verbal ou mental, e se alguém quiser saber o nível da inteligência de alguém deverá, necessariamente, provocá-lo por meio de uma atividade.
            12º - Aprender é interiorizar. Mesmo quando a atividade é motora existe uma memória, consciente ou não, que permite ao indivíduo reproduzir, e até aperfeiçoar, um determinado movimento, não só exercitando-o indefinidamente (quando andamos de bicicleta), como criando novas variações dentro de um mesmo movimento – é comum, e impressionante, ver a criatividade dos grandes jogadores de futebol, enquanto estão brincando com a bola.
            13º - Todo método de ensino é, ou deve ser, solidário com uma psicologia da criança, pois a psicologia da criança, falando em grosso modo, equivale ao manual da “máquina” que o operador vai manusear. Quem ousaria lidar com uma máquina supersofisticada sem conhecer nada de seu funcionamento? Respondo: a grande maioria dos professores e gestores brasileiros. O professor, ou o gestor, que é incapaz de explicar as suas intervenções em função da natureza da criança, é como alguém que assume o comando de um avião de passageiros, sem nunca haver pilotado antes! Se conseguir evitar acidente terá sido a mais pura sorte. Não dá para levar a educação de crianças na base do improviso, de medidas bombásticas ou de palavras de ordem. A ESCOLA BRASILEIRA PRECISA DE MAIS PEDAGOGIA E PSICOLOGIA!
            14º - Na educação tradicional o professor é o modelo, que ensina à criança o que ela deve fazer ou pensar. Na educação moderna, ou mais científica, o professor propõe as atividades e observa aos alunos. São eles que têm que fazer e que tirar as conclusões, não recebendo as sínteses já prontas, como é hábito nas nossas escolas, em livros didáticos e apostilas, principalmente nos chamados cursinhosUma coisa deve ficar clara: o professor pode ensinar, no sentido tradicional do termo, algo à criança, principalmente no início da atividade, mas na maioria das vezes ele observa e tira conclusões (avalia), mas isso só vai acontecer se ele tiver claro qual é o seu objetivo, e qual é a diretriz psicopedagógica que rege o seu método. Sem isso a observação vira pura embromação.
            15º - Não existe uma percepção imediata, direta, como se a mente fosse um depósito que guardaria as imagens e sensações vindas de fora como uma máquina de fotografia ou um gravador supersofisticado. Perceber uma imagem, supõe a construção paulatina, ativa, de um significado. Aquilo que não é entendido, mesmo em uma imagem, perde-se na descrição da mesma pelo sujeito que a observou. O adulto deve trabalhar isso chamando a atenção da criança para os detalhes. Cadê os olhos? Cadê a perna? E a outra perna? Etc. Com os jovens é da mesma maneira, só que de uma forma mais sofisticada, é claro.
            16º - A experiência, enquanto manipulação, ação na realidade, é fundamental, pois mesmo as noções mais abstratas têm o seu substrato, a sua raiz, nas formas mais simples de ação sobre o concreto, e é justamente a falta dessa experiência que muitas vezes atravanca o progresso da aprendizagem de conceitos matemáticos ou científicos, já no final da escolaridade básica.
            17º - Não se confunda atividade com mera motricidade. A atividade possui um elemento racional, uma clara consciência daquilo que se fez, comunicada por meio de palavras ou gestos. A tomada de consciência, depois de uma atividade, é uma etapa fundamental no progresso do pensamento, e os adultos devem constantemente chamar a atenção de jovens e crianças para isso. Que se multipliquem as perguntas e controlem-se, com regras racionalmente aceitáveis, as respostas, exceto quando da produção artística.
            18º - A mera percepção, não acompanhada de uma atividade compreensiva, seja motora, verbal ou mental, que mobilize o observador a uma tomada de consciência do que ele acabou de observar, como acontece quando se passa um filme em sala de aula, acreditando-se que “uma imagem sempre fala mais que mil palavras” (só fala para aquele que compreende o nível da mensagem propagada pela imagem), não gera aprendizagem, como qualquer adulto pode constatar, já no dia seguinte, ao observar que vários alunos já esqueceram quase tudo o que viram na projeção, e aquilo de que alguns se lembram, é, na maioria dos casos, justo aquilo que, na percepção do professor, era irrelevante para a mensagem central. Isso nos remete à loucura que é tentar induzir o sistema a se tornar mais audiovisual, a pretexto de melhorar a aprendizagem.
            19º - Quando o professor apresentar um problema aos alunos procure fazê-lo dos mais variados ângulos possíveis, inclusive os mais absurdos ou aqueles que estão evidentemente errados. Sim, induza-os ao erro, mas desde que eles tenham plena liberdade de contradizê-lo e expressar livremente a sua opinião. Esse exercício ajuda aos alunos a aprimorar a sua argumentação.
            20º - Um ambiente pobre em estímulos verbais dificulta e correta expressão do pensamento, e, em contrapartida, a complexificação desse mesmo pensamento. Mas isso não é uma sangria desatada, e uma mente, relativamente bloqueada pela baixa qualidade de expressão do meio em que vive, mudando de ambiente, poderá demonstrar todo o seu potencial, embora, ao que parece, haja uma idade limite para isso, variável de pessoa para pessoa.
            21º - Qualquer nova aprendizagem (= descoberta ou invenção), representa para a mente um estado de equilíbrio dinâmico, que ganha tanto mais estabilidade ou equilíbrio, quanto mais se flexibiliza, abrindo-se para novas possibilidades. Quanto mais aberto mais estável, ao contrário do equilíbrio estático de uma balança, por exemplo, ou da visão de uma evolução do conhecimento puramente linear (só é linear no início) – por aí se percebe o grave erro em que incorre uma proposta de educação que queira impor competências e habilidades rígidas, cobradas milimetricamente dos professores, ou querer trabalhar com “links” (leitura não linear) desde a mais tenra idade. O grande perigo é o da rigidez mental, a postura de quem acha que já sabe, e se recusa ou resiste, das mais variadas formas, a rever os seus pontos de vista, sequer colocá-los em questão. O professor e os pais devem sempre estar provocando, jamais impondo, conclusões intelectuais a seus filhos e alunos. Se o jovem já aprendeu algo, está na hora de apresentar-lhe um novo desafio.
            22º - Que o professor evite a exposição verbal, em excesso, dos conteúdos, nas suas aulas, como que a dirigir o processo de aprendizagem dos alunos para onde ele quer, exatamente, como se educar fosse algo semelhante a amestrar ou domesticar animais irracionais. A melhor forma de “descongelar” o pensamento de uma criança ou jovem é através do trabalho em grupo, do encontro deste com seus iguais. O professor jamais deve se considerar como um igual no meio dos alunos, nem deve buscar essa condição, Ele é o técnico do time e não um jogador. O grupo de crianças ou jovens, agindo sobre cada um de seus membros, no nível em que cada um consegue entender e aceitar, tem mais condições de acelerar a evolução do pensamento de seus membros, com a ajuda do professor e de adultos respeitáveis, é claro, do que se for conduzido na marra.
            23º - Quanto mais ativo for o processo de ensino-aprendizagem mais interesse despertará no aluno. A atividade motora (escrever um texto), mental (encontrar a solução para um problema) e verbal (expressar uma opinião), mobiliza muito mais recursos orgânicos e mentais do educando que a mera percepção passiva de uma mensagem.
            24º - Quanto menos se entende o significado de uma mensagem, mais rapidamente ela é esquecida. Essa incapacidade de apreensão pode estar ligada à complexidade mesmo do termo (por exemplo, o conceito de “cultura” que todo mundo fala, mas ninguém, nem mesmo os cientistas sociais têm muito claro o que ela quer dizer, e assim cada um a usa em um sentido diferente, muito pessoal, e nem se dá conta disso), ao pouco uso do termo no meio social onde se vive (constatei isso fazendo joguinho de “soletrando” com meus alunos, quando mesmo pronunciando palavras “fáceis”, como “constitucional”, termos que meus alunos do meio rural quase nunca usam, eles invariavelmente escrevem errado), uma outra possiblidade é uma forte reação afetivo-emocional com um termo (aqueles alunos que provém de família muito religiosa terão dificuldade em pronunciar ou escrever palavras que evoquem um contexto de “pecado”, particularmente repudiado pela sua denominação religiosa, ou a alguma lembrança emocional dolorosa).

            25º - O aluno deve falar daquilo que aprendeu, ainda que usando palavras erradas ou um entendimento parcial do que aconteceu. Isso é absolutamente necessário, pois enquanto a pessoa expressa aquilo que entendeu de sua aprendizagem ela vai sendo provocada, naturalmente, a reelaborar as suas conclusões, aperfeiçoando-as. Por aí se vê o grande erro em que incorrem pais e educadores que não abrem espaço para ouvir a fala de seus filhos e alunos, tanto quanto se esforçam por “ensiná-los” – comunicação em mão única – sem falar nos piores de todos, que são aqueles que premiam ou elogiam a alunos e filhos “quietinhos”, que não expressam a sua opinião, o quão não deve se angustiar um professor quando encontra em sua turma um aluno que se recusa terminantemente a falar! E são tantos em nossas salas de aula! Deus nos ajude!!! (continua)

(visite o blogue historiatexto.blogspot.com.br)
Agradecimentos à minha esposa Margarida Guimarães


PARÂMETROS PARA UMA EDUCAÇÃO PIAGETIANA (BASEADO EM TEXTOS DE LAURO DE OLIVEIRA LIMA) III

Prof Eduardo Simões

http://www.saturdayeveningpost.com/wp-content/uploads/satevepost/norman_rockwell_knuckles_down_clipped.jpg
Fontewww.saturdayeveningpost.com 
            26º - Há duas formas de encaminhar os objetivos maiores da educação: uma para a criação de hábitos rígidos, outra para a formação de uma flexibilidade mental. Digamos de outro modo: uma pedagogia para a conservação e outra para a transformação. Olhando hoje para a experiência passada, nós podemos dizer que essas duas metas são complementares e não antagônicas, como invariavelmente colocava o professor Lauro, e muita gente ainda hoje no Brasil. De fato, se pensarmos a rigidez mental em analogia com a forma com que os colégios militares tratam a disciplina, e que as escolas civis, no passado, tentavam imitar, podemos dizer que a contradição era total ou no mínimo profunda com o pensamento piagetiano, mas se pensarmos que mesmo em um processo de invenção ou descoberta um mínimo, e por vezes até um máximo, de disciplina é necessário, e que ninguém parte de algo absolutamente novo para descobrir ou inventar qualquer coisa, então um equilíbrio entre conservação e transformação é necessária, assim como não se deve abolir de uma hora para outra, antes de avaliar sua funcionalidade, uma regra ou hábito só por ser velho, ou não dar resposta a demandas imediatas. O fato educacional-pedagógico deve sempre ser avaliado na história e no futuro de longo prazo.
            27º - Em cada disciplina, os conteúdos e os métodos a serem utilizados devem ser meticulosamente planejados, pois é a qualidade e a adequação do conteúdo ao nível mental e ao interesse social da criança que vai determinar o sucesso do processo de ensino-aprendizagem, e não o volume, aleatório ou não, dos conteúdos, como acontecia com os exames vestibulares e agora com o ENEM, o vestibular com um novo nome, típico de um sistema que não tem ainda claro aonde quer chegar.
            28º - Não basta à criança intuir a resposta correta, é fundamental que ela seja capaz de discorrer sobre os passos que ela deu até chegar àquela resposta, numa espécie de tomada de consciência contínua. É uma pena que o nosso sistema superlotado, de olho apenas na relação custo-benefício, típica de burguês pão-duro, não dê muita condição objetiva para isso.
            29º - O saber adquirido pela experiência do próprio aprendiz é muito mais útil, e se consolida muito mais fácil e permanentemente, que o saber adquirido pela informação do professor ou por qualquer outro meio audiovisual. A maior ilusão do momento é acreditar que o computador, apresentando a informação de modo muito mais variado, colorido e dinâmico, vá acrescentar mais ao aluno que uma aula expositiva do professor. Não vai, porque o aluno continuará privado de sua experiência pessoal, agravada pelo fechamento dos laboratórios e o investimento em computadores que mostram as experiências acontecendo virtualmente, muito mais “barato”, óbvio. Um grande atraso.
            30º - Todo hábito, em crianças que já aprenderam a falar, requer: uma sequência motora, uma sequência verbal (possibilidade de descrição ou de comunicação sonora), e uma sequência de ações interiorizadas (poder ser reproduzido mentalmente), mas apesar de todo esse aparato é ainda um esquema rígido. Uma afirmação do tipo “todos os homens são iguais” é um hábito verbal. As palavras são sinais de ações (descrevem, substituindo, as ações virtualmente, de modo a serem entendidas pelos outros), as imagens são símbolos das ações (substitutos pessoais destas, que ao serem socializadas nem sempre são entendidas, como quando uma criança descreve uma ação ou um objeto desenhando; muitos não conseguem ver o que ela está dizendo haver ali), e as abstrações esquemas de ações (imaginar uma ação acontecendo mentalmente). Enquanto essas atividades mentais estiverem presas ao concreto e não forem reversíveis, são rígidas, não operatórias.
            31º - O antigo ensino das línguas clássicas era muito funcional porque implica em muita reflexão sobre textos e em um mergulho profundo na cultura, cuja língua se queria aprender, o que não acontece hoje, não só quanto ao ensino de língua estrangeira como das outras disciplinas, corrompidas por um sistema que as vê apenas como “ferramentas”, para objetivos utilitaristas de curto prazo, algo que, a meu ver, já corrompeu gravemente todo o sistema, e que, igualmente a meu ver, dará muito trabalho para ser superado e podermos retornar aos trilhos corretos.
            32º - Deve-se buscar sempre o interesse do aluno, e não a sua obediência imediata, ainda que esta dê menos trabalho, ainda mais nas classes superlotadas dos dias de hoje. Às vezes, porém, em função da grande disparidade de níveis mental nas turmas (há muita heterogeneidade provocada pelo apego excessivo à faixa etária, inclusive por motivação político-econômica), é necessário que o professor se imponha com mais autoridade e até eleve a voz (o “grito” para não perder a boiada). Para ele encontrar o interesse do aluno deve aproximar-se o máximo possível deste, descobrindo os seus interesses e aspirações, e conviver com isso por mais penoso que seja para o professor (eles podem gostar de músicas, filmes, livros etc., “abaixo da crítica” para o professor), sem deixar de tentar sempre elevar o nível de seu simbolismo (trazer autores diferentes, obras consagradas, etc.).
            33º - Os animais, mesmo os mais simples, estão às turras com natureza a fim resolver problemas de adaptação para a sua sobrevivência física, a única que lhes é relevante, buscando meios para se manterem vivos. A vida mental, que é uma forma de adaptação, só que em outro nível, despendendo, relativamente, muito pouca energia, mas encontrando resultados maravilhosos, desde que bem “educada”. As estratégias de ensino-aprendizagem, por conseguinte, devem primar por, respeitando as características da vida mental, ajudá-la a desenvolver estratégias que viabilizem o seu maior desenvolvimento possível, retirando-a da esfera da mera luta pela sobrevivência, como acontece, por exemplo, nos cursos técnicos tradicionais ou na mentalidade educacional que só tem olho para “habilidades” e “competências” cognitivas, dirigidas a conteúdos fixos, por meio de métodos rigidamente padronizados, como está se tornando moda em um importante estado da Federação.
            34º - Na língua portuguesa existe uma classe gramatical que é cara aos professores piagetianos: os verbos, elementos fundamentais para descrever ações, sejam elas reais ou virtuais. O professor deve ter sempre eles em mente quando for escrever o seu plano de ensino.
            35º - Não deve haver preocupação em mostrar conteúdos diferentes para turmas de níveis diferentes, pois cada um dos níveis verá ou refletirá apenas aquilo que o seu nível mental permite que ele veja (o nível mental pode bloquear até a visão!) ou reflita, e o professor pode usar disso para avaliar melhor o desenvolvimento das turmas.
            36º - A imagem mental está muito ligada ao mecanismo de memória, que decerto fornece suporte para o pensamento operatório, mas não pode jamais substituí-lo, sem perda (note-se a inconveniência de uma aprendizagem baseada na memorização, seja de datas, nomes, lugares, seja de processos, ainda que complexos ou relacionados a máquinas complexas). A invenção e a descoberta, às vezes chamadas de criatividade, devem estar sempre presentes, são fatores de humanização por excelência, embora não os únicos.
            37º - A imagem, ainda que em movimento, como em um filme, não é capaz de competir em termos de eficiência para a aprendizagem, com a ação real desempenhada pelo organismo no ambiente em que ele está, este analógico e tridimensional. A imagem é incapaz de substituir o pensamento, embora sirva de suporte para este, mas ao contrário dele não possui reversibilidade, é rígido, e pouco funcional para uma estrutura potencialmente tão gigantesca e flexível como a mente humana – foi por isso que os seres humanos mais desenvolvidos evoluíram da escrita pictográfica para a fonética, onde os sinais nada têm a ver com a realidade que representam. A realidade (decodificada na imagem) obstaculiza o fluxo do pensamento que os sinais gráficos e os sons (a voz), em nada semelhantes àquilo que representam, libertam.
            38º - Antes de mandar um aluno desenhar um objeto o professor deveria permitir que o aluno o manipulasse à vontade, permitindo-lhe construir, por meio da “ação sobre”, uma imagem mais perfeita, objetiva, dele (o objeto). Isso nos mostra que a imagem não é um dado primário, uma impressão, como a que se forma no acetato ou nos bits e bytes de uma máquina de fotografia, quando se abre o diafragma. O professor Lauro tem uma frase muito feliz: “o desenho é uma imagem exterior do objeto. A imagem é um desenho interior do objeto” (Piaget para principiantes, 4ª edição, Summus, pg 111, altamente recomendado e fonte da maioria das afirmações deste texto).
            39º - Na aprendizagem sobre algum objeto físico, o mais conveniente seria se o aluno fosse autorizado tanto a montar (ação direta) como desmontar (ação inversa), o dito objeto, e vice-versa. As crianças e os jovens adoram desmontar as coisas para ver como funcionam, e isso deve ser usado a favor da aprendizagem.
            40º - Um filme mostrando uma ação, o funcionamento de uma máquina, etc., é muito interessante, e, certamente, mais eficiente do que uma descrição meramente verbal (para descrever a realidade objetiva, o desenho é mais eficaz que as palavras, não esquecendo que a reversibilidade está na mente, percebida a partir das relações com as pessoas e objetos, e não em objetos concretos, de sorte que qualquer um possa apreendê-la quando quiser), porém, a simples visão do filme não é garantia que todos os alunos entenderam ou perceberam tudo o que aconteceu (isso é fácil de descobrir), ou mesmo a mensagem que o professor julga ser a mais importante.
            41º - Quanto mais a criança é jovem, mais ela se prende à percepção, e é, por isso mesmo, mais sujeita ao esquecimento, justamente porque não é capaz de raciocinar sobre o que vê ou percebe, e por isso não é capaz de reter e preservar os elementos mais significativos dessa percepção (memória). Isso nos chama a atenção para a curtíssima memória que temos observado em nossos alunos hoje em dia. Será isso sintoma de pouco desenvolvimento mental, de sorte que, apesar de adolescentes e jovens, nossos alunos permanecem cognitivamente infantis, ou será que isso é um sintoma meramente afetivo, uma repulsa inconsciente e dirigida ao ambiente escolar, apesar de haver neles um potencial de inteligência real superior?


(visite o blogue historiatexto.blogspot.com.br)
Agradecimentos à minha esposa Margarida Guimarães

DA RECEPÇÃO E DESPEDIDA SEGURA DE CRIANÇAS

Prof Eduardo Simões


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3HIkCy7etuQKMFwqNzkFBO4lSwyeLyLPnTckY-SS76gK9P3VH4H0TK_-vgZTREA10ZXatrjLNrqqajUMOk72hdngia1Akj0UsJshvI06fQ733mZwhMdg5GT9qTC-YGflajTRulEHMvF8/s640/DSC_3652.JPG
                    Organização é fundamental

            “Criança cega a gente”, diz a sabedoria popular, e eu tive a oportunidade de comprová-la, quando, tempos atrás, eu e minha esposa deixamos nossa filha mais velha, ainda bebê, brincando aos nossos pés, enquanto conversávamos em uma barraca de praia, com várias outras mesas lotadas, no Ceará. Olhamos para baixo, e a criança não estava mais lá! Só Deus sabe o sufoco que passamos, até que a encontramos mais adiante, explorando, perdida, o ambiente.
            Os modernos engenheiros e planejadores, desprezam a lição das velhas escolas, cheias de ambientes perfeitamente isolados, que se permitiam a múltiplos usos e facilitavam o controle das crianças, para a sua própria segurança – nesses últimos anos apareceram muitas teorias, despreocupadas de comprovação científica, e observação sistemática, que tentam tratar a criança como se fosse um adulto em miniatura, perfeitamente cônscio de seus atos, e, por conseguinte, qualquer tipo de controle é uma violência política, e um desserviço à formação do “cidadão integral”, blá, blá, blá, mas que fez escola entre nós, para a desgraça das crianças, como mostram os acidentes, inclusive fatais, a se propagar pelo país. Portanto é preciso dizer sem receio: as crianças continuam tão infantis como no tempo de Cristo, e necessitadas de gente bem preparada, não necessariamente tão santa quanto, e de lugares seguros, porque antes de se tornar um bom cidadão, a criança precisa, antes, viver o bastante para se tornar um adulto.
            Mas, como eu dizia, desprezam-se as lições do passado e criam-se novos ambientes, abertos e imensos: “a escola não pode ser uma prisão”, blá, blá, blá, arquitetonicamente muito agradáveis e arrojados, coisa feita mais para exibir o gestor-mor, do que para abrigar crianças, facilitando a ocorrência de lamentáveis acidentes. Portanto, a primeira coisa a fazer é determinar um espaço amplo o suficiente, mas não excessivo, depende do número de crianças e professores, que aí ficarão abrigadas por algum tempo, antes da entrada na sala de aulas e, posteriormente, à saída.
            Outra característica desse espaço é o fato dele ser o mais perfeitamente isolado possível de outros espaços na escola, contendo quando muito uma ou outra saída, facilmente observável, de sorte que nenhuma criança, após “cegar” os adultos, desapareça de repente. Esse espaço, é claro, não pode ficar ao ar livre, sob pena de perder-se em caso de chuva.
            Ao entrar na escola, numa hora claramente determinada, a criança se dirigirá para esse espaço, para ser acolhida pela professora, e aí ficará brincando com ela, de uma forma organizada, enquanto espera a chegada de seus companheiros. Completada a turminha, dado o sinal para entrada à sala de aula, os alunos, organizados, se dirigirão para ela e darão continuidade às suas tarefas.
            Quando o espaço for pequeno, assim como o número de crianças, e bem seguro, ou quando as crianças já tiverem adquirido um bom ritmo, e se acostumado a esse ritual, ela podem ser liberadas para ir até a sala de aula para deixar o seu material e voltar para ficar com a professora, esperando os colegas e o início das aulas, enquanto isso não acontece elas podem ser levadas por uma auxiliar até a sala de aula e deixar o seu material, e depois voltar, sempre acompanhadas. Mas, em geral, nas escolas públicas, o número excessivo de crianças e o pequeno número de serventes, além dos vastos espaços, não permitem isso, então é melhor que a criança fique com a professora, portando o seu material.
            Quando a escola é pequena, e as turmas idem, então temos as condições ideais. Eu já presenciei crianças de dois-três anos deixando suas coisas, sozinhas, na sala de aula e voltando, célere para esperar o restante dos amigos com a professora. Essa é a situação ideal, mas quem valorizará isso, uma vez que esse sistema tem um grande incômodo para o recente padrão cultural brasileiro: é caro, e os governos só pensam, com a aprovação dos pais, seus eleitores, em enxugar as despesas da educação? As turmas foram ampliadas, compensando-se com a professora auxiliar, um recurso pedagogicamente condenável – induz as crianças à “dupla centração” – mas economicamente interessante, sem falar do desespero da professora em dar conta de tantas crianças. Hoje está ficando comum esquecer uma ou outra criança na escola, após o expediente.
            Esse número enorme de crianças, certamente exige um espaço de acolhida e despedida bem maiores, sem falar de rituais mais precisos, cobrados com muita intensidade – é bem mais difícil colocar uma turma grande e heterogênea no ritmo, do que uma turma pequena e homogênea – com a professora dirigindo a recepção e as atividades iniciais das crianças, enquanto a professora auxiliar fica a uma certa distância, só observando, atuando apenas quando perceber que uma ou outra criança está tentando “se extraviar” ou se afastar, sem razão, do grupo. A professora e a auxiliar devem constantemente contar as suas crianças, para ver se não “perderam” nenhuma, e dar imediatamente o alarme quando isso acontecer. Numa escola de tempo integral de minha cidade, duas crianças de três anos forma encontradas, vagando fora da escola, razoavelmente distantes, sem que ninguém, na escola, desse conta.
            No final do expediente, as crianças devem ir para o mesmo local da sua recepção, e lá, de forma organizada, induzidas a se sentar em grupo, isso deve ser mais fácil nesse período porque elas já devem estar cansadas, e esperar os seus responsáveis. As professoras ficam com as crianças o tempo que o seu contrato determina, retirando-se em seguida. As crianças então são mantidas sob a guarda de serventes ou funcionários específicos, enquanto esperam. Brinquedos ou outros recursos disponíveis às crianças quando de sua chegada, já devem ter sido retirados do local. O essencial, agora, é “baixar a rotação” da meninada.

            Nas escolas grandes, onde crianças pequenas convivem com maiores, se for possível, o nível de organização dos alunos permitir, grandes e pequenos podem esperar juntos, embora em grupos diferentes, por seus pais ou responsáveis, caso contrário que esperem em ambientes diferentes. Duas coisas são importantes, para as crianças menores até necessárias: os rituais e a organização. É um equívoco deixar crianças e jovens entrarem e saírem da escola como o estouro de uma boiada, e para essa organização e esse ritmo todos os esforços devem ser empreendidos, pois é da organização dos espaços e dos movimento dentro da escola, e em outros lugares, que deriva a organização interna da mente, e dos afetos.

Fonte: http://saofranciscoagora.blogspot.com.br/2013/10/esf-de-guaxindiba-reune-mais-de-500.html

(viste o blogue historiatexto.blogspot.com.br)
Agradecimentos à minha esposa Margarida Guimarães

Nenhum comentário:

Postar um comentário