EDUCAÇÃO

sábado, 22 de novembro de 2014

PROFESSOR BOM É AQUELE QUE PODE SER DEMITIDO

Prof Eduardo Simões


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Fonte - http://fotografia.folha.uol.com.br/

            O número 858, de novembro, da revista ÉPOCA, trouxe uma matéria esperançosa para os profissionais da educação com o título “DEPENDE DELE”, esclarecendo na subchamada: “...um fator [para o progresso do aluno] importa muito mais que os outros: o professor”, de autoria da senhora Camila Guimarães, mas que, ao invés de revelar e explorar os benefícios e as características evidentes de um “bom” professor, inclusive nos esclarecendo melhor o que seria essa categoria ou conceito tão subjetivo, abriu a matéria com o relato um processo ocorrendo no estado da Califórnia (EUA), onde um grupo de alunos, se sentindo lesado pelo mal desempenho de um ou vários professores, resolveu pedir uma indenização – a autora do artigo, acrescenta que o juiz considerou que, “o Estado da Califórnia fere a Constituição [dos EUA], ao manter a estabilidade de emprego e outras leis de proteção aos professores, porque isso dificulta a demissão de professores ruins” – e nessa batida seguiu até o fim da matéria.
            Daí já surge a primeira questão que desmente cabalmente a articulista e o próprio juiz da causa: o estado da Califórnia tem apresentado, “apesar” de seus professores estáveis, uma melhora  significativa no ranking da educação americana, nos últimos cinco anos, conforme se pode ler no site da revista Veja, http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/demitir-professores-ineficientes-e-uma-decisao-correta, uma revista campeã na luta pela demissão de professores, sem falar dos dados do Departamento de Educação da Califórnia encontrados em http://www.cde.ca.gov/ta/ac/ap/highestapiscore13.asp.
            É deveras notável como, em nosso país, toda vez que alguém fala em promover ou valorizar o professor ou a educação começa sempre a se queixar da impossibilidade de demiti-lo, nas escolas públicas, que o transforma no único profissional cujo valor não é medido pela importância de sua função social nem por sua qualificação intrínseca, mas antes por sua provisoriedade; quanto mais, melhor. Aliás, nessas matérias raramente se busca a opinião direta dos professores sobre esses assuntos, ficando esta restrita a uma única e opaca participação de algum representante do sindicato, como aconteceu na matéria de ÈPOCA, mostrando que o objetivo da matéria, esta e outras, não é tanto aprofundar uma questão, da mais alta relevância, creio, mas antes propagandear uma posição previamente assumida, seja pelo autor do texto seja pelo veiculo de sua publicação, ou ambos.
            Camila Guimarães chega a citar Amanda Ripley como “autoridade” em assuntos educacionais, por meio desta pérola: “[Polônia, Finlândia, Coreia] São diferentes países com diferentes culturas e tamanhos, com poucas coisas em comum”. Mas aí a situação começa a degringolar para o lado da seriedade da matéria: Primeiro, Amanda Ripley não é nenhuma especialista em educação ou professora de sala de aula, que possa abalizar com a autoridade de uma vivência, pelo menos, aquilo que diz, pois ela é jornalista. Segundo, a avaliação que ela faz sobre os três países citados é absolutamente pueril e de uma superficialidade estonteante, como se nessas questões o que valesse fosse apenas a quantidade e não a qualidade, sem falar que é preciso forçar bastante para até para ver as diferenças menos fundamentais.
            Quanto ao fato dela ser jornalista não me prolongarei mais, pois todos sabem o quanto essa categoria profissional tanto mais é ciosa de seus saberes, quanto mais é ousada em avaliar saberes alheios e portar-se como especialistas em outras áreas, e como eu não sou especialista em jornalismo ou comunicação... Mas se analisarmos melhor no que esses países se assemelham veremos algumas coisas notáveis: Em termos de área Polônia e Finlândia são iguais e três vezes maiores que a Coreia; em termos de população Polônia e Coreia não diferem tanto, mas se distanciam muito da Finlândia – nada que se compare ao Brasil, 27 vezes maior que o maior deles: a Polônia. Avancemos. O IDH de um é 35, do outro 24, e do outro 15; não é tanta diferença assim – já o IDH do Brasil é 79! E quanto à desigualdade interna.
            E a desigualdade econômico-social interna? Segundo o coeficiente de Gini de 2009,  Polônia e Coreia estão no mesmo patamar, enquanto a Finlândia está um patamar acima – o Brasil está 5 patamares abaixo dos primeiros! Se o índice usado for o P90/P10, a conclusão é a seguinte: “No Brasil a concentração de renda é tão intensa que o índice P90/P10 está em 68 (2001). Ou seja, para cada Dólar que os 10% mais pobres recebem, os 10% mais ricos recebem 68. O Brasil ganha apenas da Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. Segundo dados do Human Development Report (HDR) – Organização das Nações Unidas (ONU), de 2004, o Brasil apresenta historicamente uma desigualdade extrema, com índice de Gini próximo a 0,6. Este valor indica uma desigualdade brutal e rara no resto do mundo, já que poucos países apresentam índice de Gini superior a 0,5. Dos 127 países presentes no relatório, o Brasil apresenta o 8º pior índice de desigualdade do mundo, superando todos os países da América do Sul e ficando apenas à frente de sete países africanos” http://www.if.org.br/artigo.php?codArtigo=105&PHPSESSID=acb5440382518545d00877951637980b. 
            E quanto à homogeneidade étnica? Na Coreia, 98% da população são coreanos étnicos; na Polônia, 98,7% são polacos étnicos, e na Finlândia 91% são fineses – compare-se isso à salada étnica brasileira (47% brancos, 43% pardos, 7% negros, 2% de asiáticos, 1% índios ou sem raça, cada grupo com uma visão de cultura ou nação diferente, entremeados por levas de imigrantes da mais variada procedência). Os finlandeses estabilizaram a base de sua cultura, a língua, entre 3.500 e 1.000 antes de Cristo; os poloneses remontam suas raízes a assentamentos datados de quase 800 antes de Cristo e os Coreanos fazem a sua cultura remontar a 2333 antes de Cristo, embora os chineses só os citem lá por volta do 7º século... antes de Cristo! Compara-se isso aos 500 anos do Brasil! Ou seja: quem não é especializado em comentar educação já percebeu que as poucas coisas que aproximam esses países, e nos afastam deles, são justamente as que interessam, e que fazem toda a diferença quando se trata tanto de conseguir as primeiras colocações em exames internacionais assim como de aplicar aqui coisas que deram certo lá!
            Mas mesmo que queiramos seguir o padrão intermediário americano, as diferenças são tão gritantes que não dá para não falar nelas. Comecemos pela percepção da natureza do processo educacional. Nos EUA há indicativos fortes que nos informam estar bem claro para a sociedade que a escola e os professores realmente são fundamentais, e que a relação entre eles envolve muito mais que apenas transmissão de informações, e que o professor tem algo a dizer sobre aquilo que faz à sociedade, ao contrário do que ocorre aqui, quando o professor é ignorado nas reformas e manipulado por secretárias de educação vinculadas, em primeiro lugar, a interesses políticos, nem sempre colocados com clareza para a população – é preciso falar mais disso?   Não se trata, como imaginam as mentes mais apressadas, de reles um transmissor de conhecimento passando informações para um receptor; de um professor, que vai dar turbinar o receptor do aluno, para que ele possa digerir informações mais complexas, como acontece numa linha de produção fabril. Existe entre o aluno e o professor tal gama de possibilidades de acertos e equívocos, muito acima da vã sabedoria dos “especialistas”, que jamais puseram os pés, senão em visita, dentro de uma sala de aula da educação fundamental. Vejamos outros detalhes.
            a) existe nos EUA uma antiga e poderosa classe média que sempre deu mostras de entender e valorizar o papel da escola, inclusive a pública, a ponto de lotar ginásios para discutir questões relacionadas á administração da escola e cuidados com os alunos, etc. Onde isso acontece aqui? Uma pesquisa recente no site da revista Veja acima citada, deu que o levantamento de uma ONG constatou que apenas 12 % dos pais de alunos de escola publicas e privadas se importam para valer com o que acontece na escola de seus filhos, e qualquer professor de escola pública pode testemunhar do acerto dessa pesquisa. Agora, se a classe média brasileira, que só frequenta a escola pública, em geral, quando aperta uma crise econômica, onde, também no geral, se destaca mais na luta por privilégios para o seu filho que pela qualidade da escola como um todo, e foge dela logo que a crise é superada, como evitar que políticos interesseiros e mal intencionados, ainda que “raros” em nosso país, intervenham no sentido de demitir bons professores para empregar os seus apaniguados?
            É comum, e antigo, nos EUA, acontecimentos escolares empolgarem a comunidade e até a nação, fazendo-os discutir intensamente sobre temas relacionados à educação, como aconteceu, por exemplo, no célebre julgamento do Macaco de Scopes, quando um professor John Scopes, tentou ensinar a teoria da evolução numa escola do Tennesse, em 1925! Desse julgamento participou um dos políticos mais influentes do país e candidato à presidência! Quando isso já aconteceu aqui? Inclusive neste momento estamos discutindo uma questão educacional lançada a partir de lá!
            b) Quem não educa seus filhos e não os manda regularmente à escola, nos EUA, pode perder, para valer, e em pouco tempo, a guarda deles, tal é o valor que se dá a essa instituição e à obrigação que as famílias têm de educar seus filhos. Quem der aulas numa escola pública brasileira, salvo raras exceções, sabe o quanto ainda estamos longe dessa realidade.
            c) A questão da disciplina dentro das escolas americanas, em geral, é seríssima, um desacato ao professor pode gerar graves problemas para o menino ou seus pais, dependendo da idade do aluno e da natureza do crime. Garotos que cometem assassinato podem pegar até prisão perpétua, e quase não se houve falar de estudantes fazendo distribuição de drogas dentro da escola. É preciso dizer o que acontece neste país acerca disso? É fácil, para quem está fora de sala de aula, dizer que se trata apenas de repressão pela repressão, mas a verdade é que a sociedade americana age assim por dois motivos: sabe que está lidando com um imaturo, que muitas vezes tem a necessidade de sentir o braço pesado da lei, antes para se convencer que estas devem ser respeitadas, faz parte da aprendizagem, ao mesmo tempo em que eles, os americanos, têm consciência que o professor é a primeira imagem que os jovens vão ter do Estado, e se eles não respeitarem aquele, fatalmente não respeitarão a este. Nós, que ignoramos essa realidade tão básica estamos lutando palmo a palmo, sangrentamente, para não perdemos o controle da segunda maior cidade do país para o crime organizado, enquanto experienciamos temporadas de matança generalizada de policiais no Estado mais poderoso. Isso por lá não existe, e se aprende na escola.
            d) o salário médio do professor americano é 55 mil dólares/ano (137 mil reais, 10 mil por mês, se considerarmos nossos 13 salários anuais, sem contar que as coisas nos EUA são muito mais baratas que aqui, de tal sorte que o seu poder de compra se aproximaria de uns 150 mil reais). O estado mais rico, nova York, paga 73 mil dólares/ano (185 mil reais) e o mais pobre, Dakota do Sul, 38 mil dólares/ ano (95 mil reais, cerca de 7.300 reais por mês). Confira http://www.cde.ca.gov/fg/fr/sa/cefavgsalaries.asp. É preciso acrescentar algo?
            Prestigiado pela sociedade, protegido pelas autoridades, bem pago, até para os padrões americanos, esse professor decerto precisa apresentar resultados e justificar o imenso investimento feito pela sociedade na sua função; tal é o que acontece no Brasil? A resposta é um sonoro “NÃO”, pois o professor ganha mal até para padrão salarial do Brasil, sendo necessário que se votem leis, tipo piso salarial, para evitar que em algumas unidades da federação ou microrregiões os professores sejam extintos, sem falar de outros problemas inimagináveis por seus colegas americanos, como ser brutalmente agredido dentro da escola, física e moralmente, e no dia seguinte ver o seu agressor em sala, como se nada tivesse acontecido. O poder desmotivador de uma política de tão desmoralizante não deve ser desprezado.
            Nesses últimos anos, é forçoso reconhecer, as nossas autoridades foram muito bem sucedidas em recriar uma nova visão de escola, quiçá mais “moderna”, na sociedade brasileira. O professor passou a ser visto como uma babá de luxo e as escolas simples “depósitos de crianças”! Assim sendo, não é de estranhar que esteja se tornando comum a invasão da escola por pais furiosos, seja por que motivo for, para agredir fisicamente a professores, e até diretores, afinal em quem se vai bater nesse país, agora que as domésticas conseguiram equiparação com as outras categorias profissionais e começam a se libertar do elo escravista que as mantinham reféns de todo tipo de violência? Se esse é um quadro real da nossa escola, e isso é, aparentemente, o que a sociedade aceita como razoável, ao retirarmos a estabilidade estaremos retirando um dos poucos atrativos, em alguns casos o único, que a profissão ainda oferece, em um país onde, segundo estatísticas, faltam algo em torno de 250 mil professores, gente apenas para dar aulas, sem qualquer consideração com a qualidade de seu serviço. É uma emergência!
            A senhora Camila fala de “bons professores” como se o termo “bom” não fosse um adjetivo sujeito a toda sorte de interpretação subjetiva, como ocorre a todos os adjetivos. Existem até cartilhas e reportagens, falando desse ou daquele modelo de professor, altamente idealizado, mas quem esteve em sala de aula sabe que isso não existe, e que o professor que agrada aos bons alunos, não agradará aos maus, e vice-versa, inclusive alguns há que podem até agradar aos alunos no conjunto, mas não agradam em nada a diretores e burocratas. Eu conheço essa realidade muito de perto. Quem vai definir a sua permanência no sistema? Para não falar de uma serie de outros fatores que “invadem” o dia a dia da escola, inclusive o crime organizado, com a distribuição escancarada de drogas. E se os alunos ligados ao crime organizado resolverem fazer uma campanha, um abaixo assinado, contra um professor que ouse enfrenta-los, pensando no bem de seus alunos, quem seria louco de não assinar?
            Uma pessoa é boa ou ruim em função dos valores cultuados em uma sociedade, em especial aqueles mais elevados, posto em relevo pela função que ela exerce no meio social. Qual é o valor mais cultuado e elevado na nossa sociedade além do dinheiro, com a miríade de escândalos por ele produzidos, capazes de nos tomar quase metade dos nossos mais importantes telejornais, por meses a fio, inviabilizando as tentativas que fazemos, diariamente,  junto com nossos alunos, para que eles creiam que ainda vale a pena ser honesto e respeitar as leis? Esse mesmo valor que hoje brada, pela pena de “ilustres” personagens, que a desestabilidade do professor é o melhor caminho para curar os males da nossa educação, como se este, pelo seu conhecimento e pela sua obrigação de julgar e avaliar crianças, de preparar o futuro da nação, não merecesse como, os juízes, as mesmas garantias de estabilidade ou a inamovibilidade, numa sociedade onde os valores não são estáveis.
            Acenar a essa altura com a quebra da estabilidade dos professores, como a grande panaceia, em um sistema que desaba de podre e de descrédito, sem abarcar ao mesmo tempo todos os outros inúmeros fatores que comprometem muito mais gravemente a qualidade de nossa escola, é jogar lenha ainda mais na crise, apenas para seguir um modismo ou soluções alienígenas, e confirmar a sabedoria dos antigos que afirmavam que “Deus começa por tirar o juízo daqueles que vão se perder”.

           
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